Desembaraço

Manoela Marandino
Sep 6, 2018 · 1 min read

Meu cabelo amanheceu embaraçado na manhã de domingo.

Eu não dormi fora, você sabe.

Eu me apego às pessoas quando acordo do lado delas e acho que não quero nunca mais me apegar a ninguém, porque fui amaldiçoada pela luz que vinha da janela e refletia no seu cabelo no dia que acordei do seu lado pela primeira vez e desejei nunca mais acordar do lado de ninguém que não fosse você.

Mas hoje acordei sozinha numa manhã de domingo com os cabelos embaraçados.

Não foram seus dedos que embaraçaram, como normalmente acontecia quando você decidia fazer cafuné na minha cabeça, nem estavam meus cabelos embaraçados nos seus como normalmente acontecia quando a gente se beijava e eu não já não conseguia mais reconhecer de quem eram os fios longos na nossa cara. Porque eu não precisava reconhecer. Porque diante da janela do seu quarto éramos um só, feitos de pele, cabelo e coração.

Hoje acordei sozinha, numa manhã de domingo, com os cabelos embaraçados, uma escova e a missão de tirar os nós de algo que está preso na minha garganta como uma bola de pelos que você deixou quando se esfregou como um gato por toda a minha vida e foi embora num salto.

Mas não tem motivo para me preocupar. Com paciência eu me desembaraço.

    Manoela Marandino

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    A vida é complicada demais e eu só sei escrever.