Portugal

Quando meus pais me contaram que iam mudar para fora do país minha primeira reação foi que isso era uma loucura. Ri muito, nem acreditei direito. Como alguém, depois de 40 anos, com uma rotina, uma vida por aqui, tudo montado, queria ir embora? O Brasil não está lá suas grandes maravilhas, mas mesmo assim, é uma jornada enorme que eles tinham aqui e estavam abandonando.

Demorou muito para a minha ficha cair e durante esse período, tivemos muitas brigas sobre a minha decisão de ficar por aqui. Como que eu, no começo dos meus 20 anos, ia abandonar tudo o que eu tenho aqui? Meus amigos, minha faculdade, minha vida. Sou uma pessoa que gosta de ir todo dia para correr ou pedalar, sentar e ser atendida pelo mesmo garçom que já sabe meu pedido. Gosto dessa rotina.

É difícil pensar que eles realmente foram. Empacotaram tudo e em 9 horas já estavam em outro país. Não ia ter mais idas ao clube para jantar, andadas pela Oscar Freire, maratona de filmes. Com eles indo embora, era tchau tchau para altas risadas durante o almoço, brincadeiras dos meus irmãos enquanto eu me arrumava ou visitas ao guarda roupa da minha mãe.

Falo para todo mundo que me conhece que a relação que tenho com meus pais é bem diferente. Eles são meus melhores amigos. Quando eles foram embora não iam só minha mãe e meu pai. Era a Fernanda e o Paulo também que foram pra Portugal.

Depois de muitas brigas e alguns choros, aceitei que eles tinham feito essa decisão. Agora eles vão mesmo e eu fico. Fico porque não podia pensar em abandonar minha vida aqui, afinal ainda tenho um caminho para trilhar. Meus amigos, minha rotina, meus lugares para ir. Eu precisava viver meu sonho enquanto eles viviam o deles lá.

Hoje, menos de um ano que eles foram pra terra de Pessoa, sinto como é preciso mudar e tudo depois de uma estadia por lá. Portugal tem um certo je ne sais quois que me fez cair de amores também. E só tenho a agradecer por terem ido.

Vejo nos meus pais uma felicidade que aqui eles não tinham. Era sempre um corre corre para tudo. Pegar alguém na escola, deixar o almoço pronto, chegar no horário. Quando ligo para eles, consigo entender o porquê de ir para lá meso com a distância de um telefone. Acho que finalmente essa felicidade alcançou eles, mesmo que do outro lado do país.

Sinto falta e como! Tem momentos que só quero pensar em poder abraçar minha mãe ou até levar broncas do meu pai. Mas, agora sinto que eles não abandonaram nada, simplesmente foram procurar novas inspirações, mais felicidade e um rumo novo para a vida. E quem sabe o sonho deles também não vira o meu?

Esse tal je ne sais quois português