Entre corpos e rituais: um rafting no Ganges

Dizem que águas calmas são sempre profundas, Ganges me surpreendeu com sua velocidade e forte correnteza.

Não, não existem corpos boiando no Rio Ganges como muitos acreditam, mas sim, eu fiz um rafting no Ganges e nadei no rio sagrado. Voltemos ao fatos. Estava eu na Índia, encantada e ao mesmo tempo confusa, e muito, muito mal. Digamos que a comida indiana não foi das mais amigáveis com o meu organismo — “Foi aquela comida estranha que comprei no trem, tenho certeza”.

Estávamos em Rishikesh, ao norte da Índia — cidade linda, mas o que mais me emocionava era a ideia de fazer um rafting no Ganges! Eu nunca tinha feito tal modalidade, mas sempre tive vontade, logo, experiência fantástica.

Subimos um pouco os Himalaias, pois claro, teríamos que descer com uma correnteza que nos desse aventura, o rio é plano mais adiante e é ali que as cinzas dos mortos são despejadas, entre lavagens de roupas e banhos. O caminho montanha acima era tortuoso, e eu tive que parar algumas vezes para, digamos assim, extrair de meu organismo o pouco de alimento que consegui comer no dia.

Passados os enjoos eu estava pronta, ou era isso que eu imaginava. Colocamos as roupas, os equipamentos de segurança e tivemos uma aula rápida — segundo os instrutores “não tem segredo, é só continuar remando independente de qualquer coisa” — “nossa, que legal, to tão animada!”.

Sentamos no bote, um bote inflável, resistente, mas sem cinto de segurança “err, ok, nem deve ser tão terrível assim — ah? prende o pé embaixo do banco. Ah! entendi, to me sentindo confiante”. O passeio começou delicioso, pequenas remadas em uma paisagem de tirar o fôlego, “opa, primeira descida, suave, ok, gostei”.

Continuamos com as descidas se tornando mais ingrimes e cada vez menos espaçadas. Pânico. “Que tipo de modalidade é essa?”. Momentos de desespero entre os que, assim como eu, nunca tinham feito isso. “vamos morrer”, “eu vou cair do bote”, “eu to voando” e algumas pessoas deitadas no chão, rezando, suponho eu. Mas o instrutor gritava alto do fundo do bote: “remem, continuem remando” — e foi o que eu fiz, juntando o resto de força que existia no meu corpo e usando algum linguajar de baixo escalão, confesso.

Não sei quanto tempo durou o passeio, mas sei que foi algo muito intenso, como toda a Índia é. Quando chegamos ao fim, adentrando as águas calmas do rio, as pessoas foram se recompondo, respirando e até dando risada. Neste momento veio a proposta: “Claro, que eu vou pular, imagina que legal nadar no Ganges? É um rio sagrado”. Tirei meus crocs (sim, eu usei crocs na Índia e recomendo), tirei minha jaqueta e me joguei.

“Ó céus, de quem foi essa ideia?”. Estávamos aos pés dos Himalaias, e o rio Ganges é formado pelo degelo do topo das montanhas, logo, foi como mergulhar em um balde de gelo ou como ter agulhas pinicando meu corpo e não existia a opção “voltar para o bote”, não, eu tive que nadar até a margem. Mãos, pés e lábios roxos, corpo tremendo e músculos enrijecidos. Agora faltava só uma “pequena” trilha até encontrar toalhas e roupas secas.


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