O dia que eu tentei ser o Rob Roy das Highlands escocesas.


Estava na Escócia, mais especificamente em Edimburgo, ou Edimbra, como os escoceses gostam de chamar. Cidade linda, medieval, histórica, mas isso fica pra outro conto, aqui vou falar sobre a incrível saga rumo ao lago Ness, ou melhor, rumo às highlands escocesas, terras altas, cenas de filmes, verdadeira Escócia. Compra-se o bilhete para o tour: ônibus, guia, visita a um castelo, lago ness e degustação de whisky. “Não poderia ser melhor” — e tudo num só dia.

Iniciamos o passeio muito cedo, muitas pessoas de vários lugares, velhos jovens, todos felizes para ver o monstro do lago. E claro, ele, o guia, um escocês muito animado.

Nos alojamos no ônibus, “que gostoso, tá quentinho aqui”. Entramos na estrada, eis que começa: música típica, ou, uma trilha infinita de gaita de fole. “Puxa que legal, vamos entrar no clima, né?”. A viagem continuou, e o guia sempre solícito dizia no microfone: “desculpem interromper esta bela melodia, mas vejam ao lado este castelo/este lago/esta montanha”, e voltava a gaita de fole.

Descemos para tirar foto do local onde foi gravado o filme coração valente, afinal, não é em todo lugar que o Mel Gibson, no papel de William Wallace, defende a Escócia. Voltamos ao ônibus e a gaita de fole mais forte. O engraçado é que o guia estava realmente adorando, ele diminuía às vezes a musica, momentos em que os passageiros sorriam e agradeciam, para falar no melhor sotaque escocês: “prestem atenção nessa musica que começou, ela é muito boa”. “Quer dizer que a gente tava ouvindo várias músicas?” — pra mim era a mesma desde que saímos de Edimburgo.

Chegamos ao lago, muito grande, e realmente muito bonito, não vi monstro no lago, o único monstro do dia foi a gaita de fole. Voltamos ao ônibus e fomos para a degustação de Whisky — a água da vida realmente trouxe vida às pessoas que estavam sofrendo internamente. Pessoal tomou uma dose, outra, enfim… voltamos ao ônibus. E agora tava triste. O ar quente estava ligado no máximo, com o álcool esquentando os corpos, as pessoas começaram a suar, e as janelas embaçaram. A gaita de Fole continuava a tocar e as pessoas estavam mal, alguns tinham crise de riso, outros batiam nas poltronas, enfim, clima de nervosismo.

Eu me levantei, fui até o guia, e pedi encarecidamente para que ele diminuísse o ar — o engraçado é que ele estava numa cabine fechada, super fresca. Ele se desculpou, disse que tinha esquecido de diminuir o ar por que estava entretido na música. Voltei para meu lugar, algumas pessoas me agradeceram.

Passados alguns minutos, queriam que eu pedisse para ele desligar a música. “Mas ele tava curtindo!”. Tal como o povo das terras altas perante os ingleses, eu também não aguentava mais, fui novamente até ele e pedi educadamente que desligasse a música. Aí aconteceu… o olhar de decepção e tristeza da pessoa machucou meu coração, de verdade, até hoje me sinto uma pessoa ruim por aquele momento. Música desligada. Todos se aconchegaram e até dormiram no caminho de volta. Ao descer do ônibus, novamente aquele olhar de tristeza. Desculpe, por alguns minutos foi legal, mas horas ininterruptas de gaita de fole foram demais para um grupo de turistas meio bêbados.