Percebi que eu não tenho muita sorte com trens

Manoela Militão
Jul 10, 2017 · 3 min read

Paris, aeroporto Charles De Gaulle, “que mágico voltar para esta cidade, não?” — Com certeza! Era por volta das 19 horas, mas ainda meio claro mesmo que estivéssemos no inverno. Vamos tomar o trem até o centro, não? “Claro” — Claro que ia dar errado.

Compramos o bilhete e quando estávamos a ponto de entrar no trem, um guarda nos deteve, apontando para um trem ainda fechado do outro lado dos trilhos. Pessoas foram se aglomerando e após uns 20 minutos o trem foi finalmente aberto, terrível, as pessoas se acotovelando. Enfim, estávamos em três, sentamos separadas. Cada uma em um canto já que fomos afastadas pela turba.

Ok. Nos acomodamos e o trem partiu. “Que linda a paisagem, bucólica”. O trem parou na primeira estação — “estação?!? Da outra vez o trem foi direto à Gare du Nord (uma das principais estações de trem da cidade)” — Ok, só vai demorar um pouco mais. Escutamos a sirene e o trem seguiu viagem. Uma, duas, três estações, a essa altura um punhado de pessoas “sinistras” já tinham entrado no vagão, afinal, estávamos parando nas estações do famoso e perigoso subúrbio parisiense, “ah! La bonne vie dans la charmante ville”.

Como eu falei, estávamos na terceira estação, a sirene tocou e o trem começou a fechar as portas. Eis que braços forçam as portas a se manterem abertas e mãos pertencentes a estes mesmos braços ativam um spray dentro do vagão, uma espécie de talco toma conta do ar. Algumas pessoas saem do vagão em busca de ar e é aí que o caos começa.

Vários gritos, pessoas sendo agredidas e malas sendo levadas. Dentro do vagão uma névoa de fumaça e muita tosse, o olho arde e a garganta seca. Uma francesa me segura depois de eu tentar levantar. Enquanto isso, muita correria, gritaria e barulho de vidro quebrado do lado de fora.

Depois de uns 15 minutos a polícia chega, algumas pessoas são levadas de ambulância com olhos vermelhos,tosse e hematomas; Outras para a delegacia fazer um B.O. dos artigos roubados. Eu fico dentro do trem, meio assustada, meio tossindo, afinal “essas coisas só acontecem no Brasil, né?”.

O trem continua seu percurso, um silêncio mórbido toma conta do ar, a não ser por uma tosse ou outra. Chegando à estação, buscamos a saída mais próxima. Pego minha mala e sou a primeira a subir a escada rolante — ufa, que bom que deu tudo certo — Quando de repente escuto um grito de pânico: “MANU” — ah, não que foi agora? — “a tia caiu na escada”.

Sim, sim, quando eu olho, minha tia estava caída na escada rolante, pernas para cima, mala, bolsa e gorrinho tudo misturado numa cena lamentável. Um homem se aproxima dela correndo — vai ajudá-la a se levantar, que bom — pega impulso, pula sobre ela e continua correndo subindo a escada. Só fazendo a cena ser mais absurda.

Desci pela outra escada correndo e subi para encontrá-la e ajudar a levantar — tudo certo, braços e pernas intactos — “que sorte”. Chegamos ao hotel logo em seguida e ganhamos uma bela vista da torre Eiffel, o que nos deu certo alívio, tudo parecia bem e seguro dentro do quarto…

Até a camareira entrar, erroneamente, às 3 da manhã e dar mais um “sustinho” na gente. Paris, sua boba, cheia dos truques de assustar.

O resto da viagem foi legal, com algumas outras emoções que valem outro conto. A cidade tem todo um charme, isso é fato, mas haja o que houver, não tome o trem.

Textos sobre experiências de viagem, e não dicas. Historiadora, jornalista, interessada em Relações Internacionais e apaixonada por viagens.

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