Sobre o dia em que eu quase morri e conheci o amor da minha vida


Éramos duas, indo passar o carnaval no Rio de Janeiro (explode coração). — “Passo no seu trabalho, de uber 15:30 para irmos pro aeroporto, ok?”. 
Eram 16:00 e nada da pessoa chegar, ligo, “amiga, está tudo bem?”. Tudo estava bem, tirando o fato do motorista ser surdo e demorar quase 25 minutos para entender que ela queria passar em outro lugar antes do aeroporto. 
Ok, corre aí moço, sinalizamos que estávamos atrasadas. O motorista entendeu bem demais essa mensagem, e foi um percurso nada defensivo que fizemos até o aeroporto.

Pulamos do carro e fomos direto até o guichê de check-in. Entramos na fila e a amiga diz em tom de medo: “to sem minha carteira, acho que caiu no uber”. Aí começa aquele momento vergonha no aeroporto, em que você abre bolsa, abre mala, tira toda as purpurinas do carnaval e NÃO encontra a carteira. “Ok, abre aí o aplicativo, vamos ligar pro motorista” — LIGAR PRO MOTORISTA?- Sim, ligamos, mas o cara era surdo, alguém atendia, mas não respondia.

“Manu, fica na fila do despacho que eu vou na Polícia fazer um B.O.” — “Moça, minha amiga está fazendo um B.O., posso despachar a mala dela junto com a minha?” — “Não, são dois volumes muito grandes”. Saio correndo atrás da amiga, não encontro, volto correndo pro check-in, ela está lá, já brigando por que o check-in tinha fechado há 3 minutos, isso, 3 minutos!

Depois de algum tempo de discussão: “Vai amiga, eu vou no próximo voo, não perca esse”. Nos abraçamos, sorrimos e otimistas falamos: “Não era para irmos juntas pro Rio, mas vai dar tudo certo”. Saio correndo pelo aeroporto, passagem, raio-x, nome sendo chamado: “Ufa, última pessoa a embarcar”.

Entro esgotada — muitas emoções, né? — faminta, já pensando no sanduíche que vou comer no avião. “Atenção tripulação, decolagem autorizada”. 5 minutos céu acima, começamos a cair. Sim, cair. O avião começou a balançar, eu quicava na cadeira - pessoas começaram a gritar, outras várias a rezar e algumas ainda a chorar. E a única coisa que vinha na minha mente era: “Minha amiga ficou, e eu to aqui, eu vou morrer”, era óbvio, coisa de filme! Foram cerca de 15 minutos nesse sofrimento, de chora, reza, grita, desencosta e cai na poltrona.

Cheguei à Congonhas exausta, tensa, toda roxa das batidas na cadeira, com fome e achando que tive uma experiência de quase morte. “Quero falar com meus entes queridos, dizer que os amo, que deu ruim, que só eu to indo e que eu chego logo”. Sem bateria. “Tudo bem, sou uma pessoa preparada, trago carregador” — maldita tomada nova, meu carregador era incompatível com a tomada só de bolinha. E lá estava eu, sozinha, com cara de pânico, com celular e carregador na mão.

De longe uma pessoa me chama, e aponta pra parede. “Legal, vou carregar meu celular!” — Não, era só mais uma tomada de três bolinhas. Nesse momento eu desisti, sentei e a pessoa começa a conversar comigo. “Mas que ideia viajar só com esse carregador, hein?”.

“Nossa, eu vou pro rio também, nesse mesmo vôo. Nossa, somos da mesma área e trabalhamos com algo muito parecido. Nossa, gostamos das mesmas bandas. Nossa, adoramos o Rio. Nossa, nós temos muito mais coisas em comum mas o texto é curto”.

Hora de entrar no avião, estava na poltrona 11D, ele na 11A — “É o destino, né?”. Entramos no avião e a pessoa faz a movimentação para sentarmos juntos — continuar o papo. “Você é meio azarada, hein? Não sei se estou seguro viajando ao seu lado”. A viagem fluiu muito bem, chegamos ao Rio quase sãos, porém salvos. “Você fica até quando? Quero te ver de novo”.

A amiga chegou algumas horas depois, sem lenço, sem documento e sem poder aquisitivo, mas com muito samba no pé.

Ah, sobre o amor da minha vida? Eu nunca mais vi ele. Nem acho que ele é realmente o amor da minha vida, mas tenho certeza de que se fosse, essa história seria muito mais legal. ;-)

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