Sobre ter a doença mais humilhante do mundo…Num trem…Na Índia
Sempre que falo que viajei pra Índia a primeira pergunta é: “Você passou mal lá?” — E sim meus amigos, sim eu passei mal. Passar mal eu diria que é pouco, foram 15 dias de dor, sofrimento e… humilhação. Sim, não existe nada mais humilhante do que você ter intoxicação alimentar, você tá ali, vulnerável, vomitando, com diarreia, não tem como respeitar alguém nesse estado. Pois bem, vamos aos fatos:
Fui à Índia de peito aberto, queria provar tudo, experimentar as comidas, as frutas, os sucos e por aí vai. Nos primeiros 15 dias tudo correu bem, estava adorando aquela profusão de cores e sabores regados à muita pimenta. Mas, porém, contudo, entretanto, todavia… A alegria não ia durar para sempre.

Tudo começou num trem (estou vendo uma constante aqui — melhor me afastar deles no futuro), estava com fome (outra constante) e passou um carrinho vendendo chai e alguma coisa para comer — sim, alguma coisa — até hoje não sei o que era aquilo — “mas manu, por que você comeu?” — Eu tava com fome, oras e a viagem seria longa. Enfim, comprei uma coisa embrulhada em papel alumínio, parecia um sanduíche — Hmmm, que delícia — e estava mesmo.
Na metade do que eu deduzi ser um sanduíche, o recheio que até agora tinha sido de uma cor passou a ter outra, foi substituída por um verde-musgo-cor-de-coisa-fungada-estragada. — Botão pânico ligou — me aconselharam a não comer mais aquilo…mas o dano já estava feito. No caso eu não comi mais aquilo e nem mais nada até o fim da viagem.
É preciso fazer um parêntesis aqui, eu nunca tomei refrigerante, nunca gostei, desde criança e a primeira coisa que te dizem quando você vai pra Índia é: “só beba refrigerante, pois a água pode estar contaminada” — Mas eu, só bebi água, óbvio. Era um looping infindável de beber água para se hidratar e piorar. Ou seja, tudo conspirou para que eu chegasse àquele ponto. Qual ponto?
Quando comecei a passar mal, estava no meio da viagem, ou seja, teria que aguentar mais 15 dias nesse estado deplorável, incluindo fazer rafting, visitar o Taj Mahal e…viajar mais algumas vezes de trem. E olha, vou ser honesta, ter intoxicação alimentar num trem na Índia é para os fortes.
Quando o enjoo e a dor começaram, fui até o banheiro do vagão, — “ai que sorte, tá vazio” — quando abro a porta, me deparo com um buraco no chão, com trilhos passando e um cheiro de naftalina com…bem, com o cheiro que todo banheiro público tem. Some-se à isso algumas baratas, por favor.

Novamente, num looping infindável, você abaixa a cabeça pra vomitar, vê aqueles trilhos passando em alta velocidade abaixo de você, dá mais enjoo, mais ânsia e… enfim, deu pra entender que não tava fácil, né? Desculpem pela imagem mental, mas é isso que eu respondo quando me perguntam se eu passei mal lá na Índia. Claro, os hotéis lá são muito baratos e é muito fácil passar mal num banheiro limpo de um hotel 5 estrelas, mas com certeza não é tão engraçado.
A viagem de volta foi fabulosa também, super glamour você ir a cada 20 minutos pro banheiro do avião — sugiro pegar a poltrona mais próxima para facilitar a logística.
Coisas que tiro desta experiência: leve sempre — SEMPRE — bolacha de maizena na mala (eu não levei, mas tive a sorte de passar por uma vendinha e encontrar algumas para comprar — estavam vencidas, mas naquela altura, eu só queria algo sem pimenta; nunca mais passei mal com comida, penso que meu corpo criou um super anticorpo contra intoxicação alimentar, então podem me convidar para comer qualquer coisa; e finalmente, por pior que tenha sido, a viagem não teria sido a mesma sem essa experiência. Se for à Índia, coma de tudo, o mais engraçado é passar mal, podem ter certeza disso!
Ah, e outra coisa, é um ótimo argumento a ser usado quando falam que você é fresca. ;)