pôr do sol, política e papel da igreja

Sexta, 31 de agosto, ano de 2018. Ápice do calor manauara. Cada dia, acrescentam-se três ou quatro graus a mais intensificando o efeito estufa. Sentado na varanda do apartamento, três livros depositados no colo esperam serem digeridos paulatinamente. Na cabeça, giram os mais variados assuntos, Abrigo R15, a comunidade que dirijo e suas necessidades, estudos a serem feitos, projetos de desenhos, histórias em quadrinhos maturando no forno das ideias, o pai longevo que desafia os efeitos da velhice, tudo rodopia acessando a mente frenética. Respiro fundo…No debrum demarcador, delimitando o campo visual pela lente do óculos focalizo duas realidades, dois cenários contrastantes, de um lado, a rua lá fora transudando vapor de gás carbônico dos carros que freiam cantando pneu, motoristas irritadiços buzinam não tolerando um átimo de segundos sequer de atraso, outros passam como bólidos tresloucados e as motos camicases cruzam diante dos carros soltando faíscas.
Do outro lado oposto, vislumbro a fileira de jambeiros altaneiros com folhas abundantes em tom de verde bandeira, carregados de flores e frutos. Folhas não balançam. Não há sequer uma lufada tênue de vento soprando…cenário “congelado” (só em termos técnicos). O mormaço querendo tomar espaço e influenciar no humor. Na testa e costas, gotículas de suor mornas porejam e escorrem em várias direções como filetes d’água na encosta das rochas quentes de Figueiredo, a sensação térmica, desagradável. Contra o azul ofuscante do céu límpido, ergo os olhos e contemplo uma revoada de periquitos dar um rasante fazendo um alarido estridente. Suas asas cintilam mais para o tom de prata do que o verde oliva de suas penas. Setembro abre alas com um céu de primavera. Hã? Sim, primavera. Você não viu? Quando você dirige sob a luz radiante do sol causticante, consegue ver beleza no ar, a explosão de cores multiformes das flores das árvores da rua e quintais que passam ante seus olhos?
Certamente que a criação transude beleza, ordem, a criatividade de Deus, Seu caráter, poder, propósito e principalmente a Sua generosidade exuberante. Tudo isto pode ser extraída dessa tão imensurável fábrica de arte divina, os mais extraordinários cenários jamais vistos, e que se você se distrair, será impedido de ver.
Penso…a natureza revela que nosso Deus é rico em perdoar e pródigo em misericórdia, bondade e generosidade. O Deus revelado nas Escrituras é essencialmente amor, Ele respeita as diferenças, a diversidade e opções de suas criaturas. Sua paciência é infinitamente elástica. A graça comum filtra a Ira do grande Dia, e enquanto este não chega, Ele se revela em favor infinito, desejando que todos sejam salvos e todos cheguem ao pleno conhecimento da verdade.
Capto de forma indistinta, retalhos de informações emitidas da televisão da sala. Entreouço noticiários onde fala-se das disputas políticas, posturas dos jornalistas, um verdadeiro cabo de guerra na disputa entre presidenciáveis, presidentes improváveis. Uns sem experiência administrativa, outros sem performance de liderança, outros abutres versados na malversação do dinheiro do contribuinte. Esperem um pouco, maritacas de vozes esganiçadas.
Minha mente desaba vertiginosamente para pensar nas necessidades do nosso povo. Mas todos os candidatos nessa hora se apresentam como messias salvadores da pátria. Mas percebem-se mentir deslavadamente. Prometem e não cumprem. Não tem um substrato de fragmento de engajamento na defesa do povo moído. São como impinges purulentas que carcomem a fé, a esperança e o futuro da nação, são como mapinguaris ciclopes com bocarra na barriga que devoram a cabeça (mente) dos que caçam conhecimento próprio e querem pensar por si mesmos.
Aí na tela da mente vejo a falta de sabedoria, discernimento e maturidade do povo que se diz evangélico (me incluo ,claro), os que dizem seguir o Evangelho de Cristo, mas refletem um evangelho sem Cristo e sem Boas Novas de Salvação, mais são parecidos com guerrilheiros beligerantes, peitos inflados de ódio, templários que erguem a flâmula de frágeis fiapos de argumentos contraditórios, “falando em nome de Jesus” defendem antagonismos gritantes ao Evangelho Puro e Simples, o evangelho Dele, o Mestre. São os macabeus dos tempos modernos que defendem porte de armas para detonar o inimigo: o ladrão, o assaltante, o traficante, o opositor, elas por elas, olho por olho, dente por dente, tu vens com uma calibre 32, eu vou com uma AR15. Nessa altura do campeonato, O Sermão do Monte passou a mais de mil. A contracultura surpreendente do amar o inimigo, do abençoar os que nos perseguem, do dar a outra face, do ser uma alegre testemunha (mártir) por amor de Cristo já passou longe, e em sua esdrúxula hermenêutica, quanto maior o trabuco, maior estrago fará. Os comparo a seguidores fanáticos que deglutem goela abaixo tudo que seus lunáticos gurus lhes impõem, sem senso crítico, sem examinar se convém, se é de acordo com os ideais do Reino, sem julgar todas as coisas, sem provar os espíritos, sem o crivo que reprova, à luz da Verdade, incoerências e insultos ao Evangelho verdadeiro. Se configura ante meus olhos o desejo de se instaurar, à revelia dos princípios do Evangelho, um regime intimidador que vai detonar os mouros hereges que não se enquadram na sua forma reduzida de pensar. Uma nova inquisição espanhola se descortina no horizonte do Brasil.
Esperem araras azuis e pôr do sol espetacular, volto já.
Nas redes sociais os terrenos foram delimitados, as trincheiras cavadas e as balas de grande calibre zunem perto das cabeças dos que pensam diferente e querem caminhar na terra de ninguém mesmo sob a mira de soldados camuflados em suas trincheiras de morte.
Mas voto é secreto e se vota em quem se quer. Ou agora é diferente?
A igreja precipitada levanta suas bandeiras com brasões definidos. Igrejas ditas evangélicas elegem e defendem partidos políticos “com unhas e dentes”, põem seus candidatos em seus púlpitos/plataformas eleitorais, os unge com óleo e os blinda com oração, esperando migalhas de concessões, de somas de dinheiro astronômicas e incentivos financeiros megalômanos.
Então, qual seria o primordial papel da igreja de hoje?
Antes de se hastear pendões com seus brasões desgastados, a Igreja deveria equipar seus membros de boa dosagem de cidadania e consciência política à luz do Novo Testamento. Deveria retornar (se converter de verdade) ao Evangelho Puro e se arrepender em massa, desde os líderes mais proeminentes até os membros mais modestos, e ensinar o caminho da Água da Vida que se espraia compartilhando suavidade generosa, impondo vida à terra sedenta, o caminho da evangelização coerente, da abordagem sem presunção, da pacificação (os pacificadores serão chamados filhos de Deus). A igreja deveria gerar milhares de promotores da paz, gente que salga, que ilumine e preserva o mundo de apodrecer de vez, que perfuma ambientes de odor insuportável de corpos decompostos dos que morrem em vida, sem Cristo, gente que ama a Deus o adora em espírito, gente que é astuta, criativa e de forma incondicional ama o próximo e toda aquele que cruzar em seu caminho.
Depois de muita elucubração, sinto uma brisa suave permear a sacada onde estou sentado. Tomara que esse vento um dia se transforme naquele, que no passado soprou, como o som de um vento impetuoso sobre a igreja no Pentecostes.
Ainda dá tempo de ver um primoroso ocaso com seus matizes em tons de cores fantásticas.
