Porque não destransicionei

Não — lugar
Aug 27, 2017 · 5 min read

Pensei muito se eu deveria escrever esse texto e se deveria publicar, ainda não tenho certeza se é uma boa ideia.

Acontece que esse é um tema que se torna cada vez mais visado para pessoas que se interessam em destilar transfobia por ai e criticar as tímidas conquistas alcançadas pela população trans. E por um bom tempo acreditei que a única forma de ser alguma coisa que não fosse homem trans “binário” fosse negando meu passado como homem trans e me juntando ao coro das pessoas que criticam a transexualidade (gente que provavelmente nunca entrou em contato com essa comunidade. E por contato digo olho no olho, ao vivo e a cores).

“Pessoas trans”, sempre é falado e entendido como um grupo homogêneo, a pessoa conhece uma única pessoa trans e acredita que conheceu o grupo e sabe alguma coisa sobre ele.

“Pessoas que destransicionaram” também é visto como um grupo homogêneo, não sei nem dizer se de fato é um grupo, não sei dizer se existe algo em comum entre essas pessoas sem ser o sofrimento em relação ao gênero. E não se pode dizer que isso seja específico desse grupo, muita gente sofre em relação as caixinhas que nos são impostas, cada pessoa reage a esse sofrimento de um jeito diferente.

Eu era militante do movimento de homens trans e o que acontece é que quando comecei a questionar a transição e manifestar meu incomodo e dúvidas, virei o vilão da história, e assumi esse papel. É preciso entender o por quê, o papel do militante infelizmente não é questionar, mas sim lutar por algo que foi definido e discutido coletivamente. Esse era o meu papel (e acredito que ainda é o papel de muitos outros homens trans), mas nunca consegui lidar muito bem com correntes prendendo minhas ações e pensamentos.

Então virei o vilão da história e aceitei de bom grado esse papel, pensei com meus botões, talvez o vilão afinal tenha muito mais liberdade que o herói, que a pessoa com história de superação, que a pessoa que serve de exemplo, etc e tal. Porém ainda não estava pronta para caminhar com meus próprios pés, procurei outro grupo no qual poderia me apoiar. Pessoas desajustadas não existem fora de grupos, vocês já pararam para pensar nisso?

Na internet é tudo mais simples, mais rápido e muitas vezes falseia a realidade. Logo me colocaram em vários grupos de feminismo radical e fiquei feliz de pensar que pela primeira vez na vida eu fazia parte de um grupo só de meninas. Talvez eu fosse menina afinal. Talvez desse grupo eu não fosse o inimigo. Talvez agora essas mesmas meninas parassem de apontar o dedo para mim e dizer “opressor”, “macho escroto”, “misógino”. Por que para mim era importante que essas meninas não me vissem como inimigo? Não sei dizer. Não sei se vale a pena tentar responder.

Bom, como homem trans eu estava acostumada a encontrar outras pessoas trans presencialmente, seja em eventos, seja em reuniões políticas, seja só para passear e bater papo ou sei lá. Acontecia muito pela internet também, mas acredito que o mais importante acontecia fora da internet. Quando comecei a “fazer parte” dos grupos virtuais de feministas radicais, senti a necessidade do olho no olho, do contato. Para mim eu só sentiria que tinha sido realmente aceita ali se sentisse isso presencialmente.

Então eu fui em eventos, saraus, rodas de conversa. E a diferença é brutal, é óbvio que é uma visão minha, narrada a partir do que eu senti e como eu percebi, não deve ser generalizada de forma nenhuma nem deve ser vista como uma verdade absoluta.

Me senti intrusa. Realmente senti que não era bem-vinda e que só seria bem vinda se me explicasse, se dissesse exatamente o que elas queriam ouvir. Senti que estava ali com a função de legitimar uma “teoria”, uma ideia comum. Eu não parecia mulher, estou bem longe de “parecer” “mulher”. Se eu não me explicasse era tratada no masculino, com aquele sutil veneno que tanto me perseguiu durante toda a infância e adolescência, aquele sorrisinho de quem diz, tem certeza que seu lugar é aqui queridinho?

Não, não tenho certeza. E agora tenho menos ainda. Talvez seja algo comum desse grupo, não sei dizer. Talvez seja só uma interpretação totalmente equivocada da minha parte, não sei. Mas quando quis dizer que a diferença da minha entrada no universo trans e na minha tentativa de entrada no universo lesbo-feminista radical, ter sido brutal, o que eu quero dizer é que as pessoas trans me acolheram, em pouquíssimo tempo senti que fazia parte daquele grupo e que era muito bem-vinda. Não foi assim com as radfem e eu entendo, são grupos totalmente diferentes com dinâmicas diferentes.

Mas esse texto na verdade era sobre essa palavra: destransição. Não gosto nem um pouco dessa palavra e muito menos da forma como é utilizada. Destransição da a entender que eu voltei atrás, que eu me arrependi, que errei ao transicionar e que na verdade nunca fui trans. E no começou realmente comprei esse discurso, mas agora, um ano depois pensando e refletindo sobre isso, queria dizer que não acredito que a transição tenha sido um erro. Digo isso sem a pretensão de fazer parte de algum grupo, acho que pela primeira vez na vida simplesmente não me importo em me sentir parte de algum grupo ou identidade.

Minha vivência enquanto homem trans não foi falsa, não foi uma mentira, assim como meu passado enquanto menina desajustada também não foi uma mentira e assim como eu hoje não sou uma mentira. Todos os momentos que vivi, todas a identidades que assumi, tudo o que me transformei ao longo da vida, e isso não se limita a uma questão de gênero, nada disso é um erro. Do que cabe a mim, não me arrependo de mudar, não me arrependo de todas as vezes que me joguei de cabeça em alguma ideia, não me arrependo da minha intensidade.

Mas me arrependo sim dos amigos que machuquei ao longo da minha tragetória, entendendo que muitas vezes a briga é inevitável quando queremos fazer algo que nossos amigos não concordam, mas me arrependo da briga sempre ter sido tão feia, me arrependo de não ter aceitado que muitas pessoas não iriam concordar comigo e que não precisavam concordar e que eu tampouco precisava da aprovação delas e muito menos precisava tentar fazer com que entendessem meu lado quando nem eu mesma entendia direito e quando não tive sensibilidade o bastante para também me colocar no lugar deles.

Veja, mudar requer um certo “egoísmo”, pessoas trans sabem disso, quantas brigas e lutas temos que travar para mudar? De quanta gente a gente tem que se afastar porque a convivência fica insuportável? Pois bem.

Não destransicionei no sentido de voltar atrás, talvez tenha tentado, com um saudosismo romantizado de um passado que nunca existiu. Mas não voltei. É impossível voltar atrás. Não quero me perder em explicações. Eu mudei (muitas vezes ao longo da vida aliás), mas dessa vez não foi algo em torno de uma identidade, não foi atrás de me sentir aceito por algum grupo ou em função de alguma luta social. Não ligo mais para como as pessoas me lêem ou o que pensam que sou, não estou tentando ser coisa alguma, finalmente não me importo. Não vou brigar, só não quero mais jogar esse jogo dessa forma.

)
Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade