
Uma maratona com M maiúsculo
Única, imponente e calorosa. Não dá para esperar menos de Nova York.
Existem maratonas, existem maratonas legais, existem maratonas memoráveis e existe a maratona de Nova York. O maior evento esportivo da cidade e a maior maratona do mundo — são 50.000 corredores percorrendo os cinco bairros dessa cidade que tem um espaço especial no meu coração.
A cidade respira corrida na semana da prova. Há propagandas por todo lado e milhares de turistas-corredores, aqueles com looks esportivos, tênis de corrida e portando orgulhosamente jaquetas de maratonas anteriores (na sua esmagadora maioria, de alguma Major recente), uma espécie de “insígnia”, como quem exibe aos demais integrantes da comunidade as suas batalhas travadas no passado. O ser humano sempre foi assim e não seria na corrida que ele mostraria uma outra faceta. Outro ponto que se destaca é a organização, que é impecável. É padrão Major, meus amigos! É seguro dizer que americano não brinca em serviço quando o assunto é organizar um evento. Mas lá é especial. Acabei de correr em Chicago e, apesar da igual organização, a emoção que te contagia desde a retirada do kit até o caminhar pelas ruas da cidade no dia seguinte com sua suada medalha no peito, é bem diferente. Todos na cidade parecem saber da importância da maratona, do peso que tem e, talvez por isso, tenha essa áurea mágica em torno dela.
O percurso é lindo e passa por todos os cincos bairros da cidade: larga de Staten Island, logo de cara para a ponte Verrazano-Narrows, adentrando no Brooklyn (ficando por lá durante boa parte do percurso), passando rapidamente pelo Queens, onde atravessa-se o East River em direção à famosa Manhattan. De lá, segue-se para o norte até o Bronx, onde retorna-se à Manhattan em direção ao Central Park, nessa chegada com pinta de cinema (a maratona acontece sempre no primeiro domingo de novembro, portanto no outono, a melhor e mais bonita estação do ano — na minha humilde opinião, naturalmente). Impossível não se arrepiar.
Nunca escondi que meu sonho na corrida é correr as maratonas de Boston e Nova York. A primeira, se tudo correr bem, será em breve. A segunda, bem, essa consegui realizar em 2018. Que prova! Não pela performance esportiva, até que razoável pelo nível de treinamento que eu tinha na época, mas pela experiência que a organização e a cidade te proporcionam todos os anos. De outro mundo! É uma prova que te abraça do início ao fim. Por volta de dois milhões de pessoas saem às ruas num domingo de manhã, invariavelmente num frio congelante do fim do outono, para apoiarem outras milhares de pessoas correndo pelas ruas, com uma energia contagiante que, em vários momentos, provocam lágrimas nos olhos de quem se propôs a correr esse percurso mágico. O som é ensurdecedor e você se sente um atleta de elite sendo saudado pelos espectadores. Usar fones de ouvido chega a ser um crime — e tremendo desrespeito — com quem está lá só para apoiar.
Não se engane, está longe de ser uma prova fácil. Pelo contrário. Não é um percurso para recordes pessoais, tanto que o recorde da prova, no momento em que escrevo este texto, é de “apenas” 2:05:05 no masculino, realizado por Geoffrey Mutai em 2011 e 2:22:31 no feminino, por Margaret Okayo em 2003 (a título de comparação, os atuais recordes mundiais são 2:01:39 e 2:14:04, respectivamente). O som do tiro de canhão que anuncia a largada de cada onda, seguido pela clássica New York, New York de Frank Sinatra, tocada em todos os alto-falantes da vila dos corredores (de onde todos largam), soam como o canto de uma sereia atraindo o ingênuo marinheiro para o fundo do mar, escondendo a dura realidade que dali em diante está por vir. As subidas estão presentes em quase todo o percurso, principalmente nas cinco pontes que cruzam os bairros e no final, ao longo da Fifth Avenue até chegar ao Central Park, quando suas pernas já estão em sofrimento e seu corpo já dá sinais de exaustão. Talvez por isso que, não exclusivamente, claro, a cidade tem compaixão com quem se atreve a desafiar esse percurso.
Apesar de toda a dificuldade, os gritos da multidão, os cartazes com mensagens de apoio e high fives que são distribuídos por todo o tipo de gente, te enchem de euforia e trazem aquela forcinha extra necessária para continuar. Nunca vou conseguir descrever a exata sensação com palavras. É algo para ser vivido, não lido. Para ser guardado na sua memória. Como na letra da música de Alicia Keys, em uma tradução livre: essas ruas vão te fazer sentir novo em folha; grandes luzes vão te inspirar; vamos fazer barulho para Nova York!
