Manter a linha da cordilheira sem o desmaio da planície

A literatura entra pelos ouvidos e passa pelas reflexões mais íntimas do peito. Está nas coisas, na forma, no movimento e no sangue negreiro vertido sob as pedras que fazem o centro histórico colonial da cidade de Paraty, no Rio de Janeiro. É sobre essas mesmas pedras que caminhei e respirei literatura na FLIP — Feira Literária Internacional de Paraty, que aconteceu nos dias 29 e 30 de junho e 01,02 e 03 de julho de 2016.

Ao longo desses cinco dias pude conferir muitos saraus, mesas de discussão, sessões de cinemas, intervenções ao ar livre, cirandas com autores, toda sorte gastronômica e cachaceira, artesanato e artes produzidas por moradores locais, por onde resultou na minha mente em ebulição — um turbilhão de sentimentos, buracos e questões ao entorno de toda a abordagem literária posta a mesa da Flip, um prato cheio de achados, que se perdeu em manuscritos do meu caderno de anotações e que me colocou em um universo onde é preciso manter a linha da cordilheira sem o desmaio da planície. Essa definição é perfeita para o momento e saiu do título que nomeia o documentário de Walter Carvalho com o poeta Armando Freitas Filho, que foi exibido logo após a mesa de abertura com a participação de ambos sobre literatura e cinema e inaugurava oficialmente a Flip, o filme é resultado de uma convivência de sete anos entre os dois e deixa uma pergunta proposta por Carvalho: “Como é que duas ou três palavras colocadas juntas me põe a chorar?”. Assistam neste link esta mesa da Flip, tenho certeza que vão acabar indo atrás de todo o resto que rolou nos cincos dias de festa.

Desde sua criação em 2003, a Flip tem se diferenciado de outras feiras literárias e sido percussora ao trazer para as mesas grandes nomes da literatura nacional e internacional, se destacando por uma curadoria de qualidade e que tem sido alternada, onde a cada edição escolhe e homenageia um autor da literatura brasileira, desbravando e imergindo em sua vida e obra como temática central do evento. Nesta edição a autora era de rosto desconhecido mas com uma estética literária própria, mundana, com uma escrita atravessada e com aspectos de intimidade sobre o seu cotidiano e que cabem ao nosso também. De aparência bonita, trata-se de uma jovem, loira, fotogênica e que usava óculos escuros, imagem e escrita que referencia a contemporaneidade e a cultura pop, seu nome é Ana Cristina César, conhecida pelos amigos como Ana C., poeta das poetas, na margem do marginal, refém da literatura e da necessidade de se expor na escrita. A autora se suicidou aos 31 anos em 1983. Estando na Flip, pude sentir o que ela sentiu e lendo suas palavras, me apaixonei pela sua escrita.

Eu poderia escrever um livro sobre cada universo e reflexão que englobasse cada detalhe, conhecimento e sentimento, que é permitido vivenciar em cinco dias de Flip, em cada esquina o despertar está prestes a te encontrar, é exatamente nisso que reside o centro nervoso da criação literária, no olhar, na experiência em que você entra no debate sem pretensão e sai com a mente em efervescência, cabeça renovada e leva concepções do coração na bagagem pra uma vida toda.

Boteco na Esquina da Praça — Flip 2016, Paraty, Rio de Janeiro, Brasil.

Dentro da Gestão Cultural e o propósito da minha vista a Flip, vamos para a partilha de conhecimento de um trabalho acadêmico e outros de consultoria que elaboramos para discussão de ideias e que contam com um olhar mais técnico do evento.

Relatório de visita técnica, Flip 2016 — apresentado na disciplina de Gestão Cultural ministrada pela Profª Claudia Vendramini, no CELACC — Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação da ECA — Escola de Comunicação e Artes da USP — Universidade de São Paulo. http://bit.ly/flipcelacc

Apresentação para a AJFAC — Associação Joseense para o Fomento da Arte e Cultura, abordando comparações e reflexões de curadoria, produção e gestão da Flip para a FLIM — Festa Literomusical do Parque Vicentina Aranha: http://bit.ly/flipcuradoria

Apresentação também para a AJFAC — Associação Joseense para o Fomento da Arte e Cultura, abordando comunicação e estruturas comunicantes presentes na Flip, realizado a partir de um olhar da Cris Abreu minha parceira de produção: http://bit.ly/flipcomunica

Acervo pessoal, fotos registradas durante a passagem na Flip 2016: http://bit.ly/fotosflip2016

Relatório Pós Flip 2016: http://bit.ly/posflip2016