Sobre meu maiô novo

Esse ano eu comprei um maiô e fui na praia três vezes, além de alguns dias de banho de rio. Estava indo viajar e resolvi passar numa loja, dessas de esportes, e lá comprei um maiô de natação que levei para o meu passeio. Nesse ponto você se pergunta “Tá, e daí?”. Pode parecer muito ridículo, mas isso foi uma conquista enorme.

Moro numa ilha com duzias de praias há 10 anos, e minha família tem casa de praia desde sempre em uma cidade próxima. Eu ia o verão todo na praia quando era criança, mas a partir dos meus 14 ou 15 anos, a ideia de colocar uma roupa de banho se tornou um pesadelo. Comecei a ter peitões e era considerada bem mais gordinha do que deveria (dica: eu não era) e a ideia de usar um biquini ou maiô era uma tortura. Como eu achava que era um ultraje para o mundo ver minhas peitiolas e gordurinhas por aí, resolvi que não ia mais à praia.

Eu passei 13 anos sem comprar nenhuma roupa de banho, e sempre que acabava tomando banho de rio, mar ou piscina, o fazia de camiseta e shorts. Olhando agora para trás, dá de ver que eu nunca me sentia confortável com a situação, mesmo tentando me tampar ao máximo, eu sempre queria ir embora cedo ou ficava infeliz num cantinho.

Quando entrei na loja fatídica, estava totalmente descrente de que sairia de lá com um maiô. Ao provar ele e me sentir plenamente confortável, e vejam só, bonita, libertei algo que tinha trancado há muito tempo e nem sabia que estava ali. Comecei a chorar no provador, e para variar, não era de infelicidade. Tirei o maiô e fui comprar as outras coisas da viagem com meu marido e não via a hora de coloca-lo para tomar banho. Ainda estava com medo da expressão que os meus amigos fariam ao me ver com ele, porque claro que nossa neurose nos faz ler reprovação onde não há. Os elogios bobos que foram feitos ao maiô e que guardei meticulosamente na memória, fizeram com que eu aproveitasse ainda mais aqueles poucos dias de banho de rio.

Meu corpo não ficou mais bonito e sarado nesse meio tempo, muitíssimo pelo contrário, nunca estive tão gorda, mas minha cabeça mudou um pouco. Não digo assim que passei a me amar incondicionalmente, mas eu comecei a tentar fazer mais por mim, o que foi certamente uma novidade. O medo da reprovação alheia me congelou em vários aspectos da vida, conseguir libertar um deles, por menor que seja, parece causar uma pequena e lenta reação em cadeia.

Não importa se eu estou gorda, isso não pode me impedir de fazer as coisas que me fazem bem. Comprei uma bicicleta, foda-se que eu sou a gorda tentando ser saudável. Usei o meu arco e flecha pela primeira vez, foda-se que eu sou uma nerd desengonçada na frente dos outros. Comprei camisetas fofas, largas e confortáveis, foda-se que eu pareço ainda mais gorda. Trabalhei minha perspectiva a respeito das coisas com muito afinco no último ano e está sendo incrível colher os frutos agora. Falta ainda um bocado para me sentir feliz na minha pele, mas o que dizer dessa arte de ligar o foda-se, que mau conheço e já considero tanto?