Sobre talento

Sempre gostei muito de desenhar, como a maioria das outras crianças. Os meus desenhos não se destacavam em nada quando eu era bem pequena, mas começaram a aparecer um pouco mais que os outros nas primeiras séries do colégio. Eu desenhava loucamente e era o que mais me ocupava o tempo, como eu era elogiada, me estimulava ainda mais. Aos 9 anos comecei a ter aulas de desenho, que pararam lá pelos meus 15, quando deveria me ocupar de algo mais “útil” como o vestibular. Nesse ponto eu já desenhava razoavelmente bem para o meio, embora tivesse vários amigos que jogavam RPG e desenhavam tão bem quanto. Entrei para o Design e isso se tornou a minha profissão.

Já ouvi muitos elogios ao meu “incrível Dom” e eu não sabia muito bem como responder a isso, como ainda não sei. Não posso negar que faço o mesmo tipo de elogio (mesmo que mental) para pessoas que cantam, dançam ou escrevem super bem, mas se você parar para pensar, isso parece um jeito refinado de desmerecer o trabalho de alguém, sem a intenção é claro.

Podemos assumir que tem muita gente que nasce com uma propensão à certas áreas, mas sem o estimulo certo e MUITO esforço, a propensão não passa disso. Eu fico lisonjeada quando elogiam meu trabalho, mas fico ligeiramente irritada quando falam coisas do tipo: “Nossa, como eu queria desenhar assim, você nasceu com um dom maravilhoso”.

Estudei anos isso, treino várias horas por dia — além do tempo em que estou trabalhando na área. É sério, eu não nasci assim, e ainda falta muuuuito para eu chegar perto do que espero do meu trabalho. É claro que dá inveja da facilidade com a qual algumas pessoas resolvem certos problemas. Nada mais frustrante do que ver gente com metade da minha idade desenhando com o dobro da minha qualidade, só que não é nada que esforço não resolva. Tem gente que leva 1 ano para chegar a um resultado que outro levaria 10, mas não tire o mérito do quem chegou antes ou depois, o que importa é que eles alcançaram seus objetivos, cada um ao seu modo.

Essa coisa simplista de talento acaba podando muito as vontades das pessoas. Quando comecei a ler vorazmente, lá pelos meus 12 anos, descobri uma felicidade que até hoje só encontro na leitura. Não demorou muito para eu também querer escrever, mas como eu devorava os livros e mal prestava atenção nos detalhes, escrevia super mal. Tudo que é relacionado a línguas me matava no colégio, e por anos eu simplesmente aceitei que meu talento era nulo nessa área. Um desânimo meu, somado a nenhum estímulo externo, fez com que eu tivesse uma vergonha ENORME de escrever ou até de falar em público.

As palavras certas (ou erradas) para alguém que quer começar a desenvolver uma coisa nova, têm um poder enorme sobre como aquela criatura vai encarar essa jornada. Sei que normalmente não é por mal, já que somos ensinados que é assim mesmo que funciona o mundo, mas não custa refletir um pouco antes de dar ou não um conselho a alguém (ou a si mesmo).

Continuo sem muita noção gramatical, mas pelo menos parei de me importar em expor minha mediocridade, nessa e em outras áreas. Assumir responsabilidade pelo resultado do meu trabalho eu já consigo, agora é só suar mais e chorar menos ;)

Texto de @manucunhas