Eu te amo, mas não gosto de você

Demorei muito tempo para entender porque havia sempre uma ponta de incômodo em mim quando estávamos juntos. Até quando nossa superficialidade me anestesiava para sentimentos mais profundos, a sensação de angústia estava ali, escondida, pronta para dar o bote a qualquer sinal de fraqueza. Sentimento intermitente, latente e por vezes insuportável.

Em nome do amor e das boas maneiras, lutei contra esse e tantos outros sentimentos. Acho até que abri mão de ser eu mesma, tornei-me uma pessoa mais fria, mais distante. Ao contrário do que pensam por aí, não sou uma pessoa triste, nunca fui. Apenas aprendi com a vida quais são nossos maiores inimigos: pensar demais e sentir demais.

Por medo de deixar que essas latências adormecidas aflorassem e detonassem minha estabilidade, deixei. Deixei tanto que, tão logo acreditei que o monstro morrera, ele reaparece, forte, indomável e surpreendentemente sensual. Sua verdade seduziu-me. Sua promessa de libertação laçou-me. E sua voz, tão cheia de razão e força, convenceu-me.

E então decidi falar, em uma tentativa desesperada de soltar esse monstro. Porém, o comodismo é sempre uma saída mais confortável. Para quê cutucar? Não sei o que virá daí, não sei o quanto posso guardar em meu baú, elemento-chave da minha armadura. Além disso, criei uma espécie de afeto pelo monstro, pois sabia que era o responsável pela segurança e estabilidade que eu alcançara.

Sempre chega o momento em que a situação se torna insustentável. Foi quando o monstro ganhou forma, cor e até nome. E aconteceu por causa de um sonho. Eu saía do banho, preparando-me para deitar. Penteava o cabelo em frente ao espelho quando você chegou e sentou ao meu lado. O sentimento estranho apareceu, tudo ficou confuso e a agonia era crescente, tendia ao infinito. De repente, o ambiente ficou sereno novamente. E então eu vi. Olhei para você e gritei. Você era eu, você sempre foi eu!

Você funcionava para mim como um espelho, malvado e sincero, daqueles que mostram todas suas imperfeições. Antes fosse espelho de loja. Antes fosse o espelho da Alice. Ah, antes fosse o espelho mentiroso da auto-confiança. Nós éramos, ou melhor, nós somos tão parecidos que irrita, que fere, que cansa. Vejo suas fraquezas com o olhar clínico do outro, de julgamento e crítica. Porém, quando percebi que tudo também se aplicava a mim, ah, aquilo me matou por dentro. Ninguém deve ter um auto-retrato tão detalhado, perfeito e austero. E o que é pior: tão próximo de si.

Agora que o monstro se apresentou, meu afeto por ele se foi, junto com seu fascinante mistério. A dor foi dilacerante. Como poderia perceber isso tudo e acordar no dia seguinte, amando a você e a mim mesma? Senti-me repugnante, pois eu era a responsável por deixar que a situação chegasse àquele ponto. Não sabia como te encarar depois disso, ou melhor, não sei. E é por isso que te escrevo esta carta. É uma carta multifacetada: de explicações, de desculpas e de vergonha.

Espero que um dia você me perdoe pelas palavras desta carta, pelas brigas aparentemente sem motivo e, principalmente, pela minha partida.

Da sempre sua,
Margareth

Obs: Levei o álbum branco dos Beatles! Peço desculpas por isso também.

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