Onde o Rio é mais baiano

A primeira vez que o vi.
Bahia, 2008.

Essa história seria mais romântica se eu dissesse que nos conhecemos em uma praia, com coqueiros balançando à beira-mar e toda aquela paleta de cores verdes e azuis que só a Bahia tem.

Mas não, foi em um final de festa. Minha amiga estava passando mal e eu estava em uma área afastada com ela, ajudando. Para piorar, ela estava chorando por alguma coisa envolvendo o seu namorado que hoje já nem lembro o que. Eu me alternava entre prestar atenção na história e no ambiente ao redor, pois me sentia responsável pelas duas.

Já estava mais que na hora de ir embora, mas ela queria ficar. Enquanto eu pensava em um jeito de levá-la de volta para a pousada, ouço uma voz “tá tudo bem?”. Minha reação imediata foi a de desconversar. Afinal, um homem estranho com a gente naquele momento era uma das minhas maiores preocupações, e não a solução. Mas no momento que eu olhei pra cima, tive uma estranha sensação de alívio. Ele me passou na hora uma segurança, como se eu tivesse encontrado um amigo de longa data que saberia como resolver o problema.

Expliquei a situação, e ele sentou com a gente. Deu sua opinião masculina sobre o caso, contou meia dúzia de mentirinhas reconfortantes e a convenceu de que o melhor a fazer era ir embora, com alguma dignidade. Em 5 minutos, conseguiu fazer o que eu estava tentando fazer há 30. Me deu um olhar cúmplice e um sorriso no canto da boca, e me ajudou a levá-la fisicamente até um ponto de táxi.

Quando já estávamos dentro do carro, disse em alto e bom tom “amor, me avisa quando chegarem na pousada”. Eu retribui o olhar cúmplice e agradeci mesmo sem dizer obrigada. Se você é mulher, sabe o quanto esse pequeno gesto pode transformar uma corrida de táxi noturna em algo um pouco menos tenso. Ao chegar, eu desejei poder realmente avisá-lo e agradecer com palavras, mas não tinha anotado nenhum contato. Não sabia sequer seu nome.

Nos poucos dias seguintes de viagem, eu tinha certeza que o reencontraria. Nas praias, nas festas, eu estava sempre atenta, procurando-o com o olhar mesmo sem querer. Mas nada. Me conformei pensando que quando é pra ser, a vida se encarrega.

A segunda vez que o vi
Rio de Janeiro, 2008.

Já de volta ao Rio, alguns meses depois, passei a acreditar mais ainda nos empurrõezinhos da vida. Nosso reencontro foi em um dos lugares mais improváveis e desfavoráveis do mundo: Maracanã. Em meio ao caos de um jogo lotado, eu o vi de longe. Meu coração foi à boca. Não tinha certeza absoluta que era ele, mas algo dentro de mim simplesmente sabia. Fiquei feliz pela grande chance dele morar na mesma cidade que eu, mesmo tendo nos conhecido há tantos quilômetros de casa.

Enquanto pensava o que fazer, aproveitei para me recuperar. Se eu fosse até lá cumprimentá-lo, precisava estar mais descontraída. Nesse meio-tempo, deu o intervalo. Fui até o banheiro, lavei o rosto, respirei fundo e me retorci pela possibilidade de não encontrá-lo novamente.

A agonia durou pouco tempo, pois nos encontramos logo em seguida, na área de passagem entre as arquibancadas. Eu estava tão nervosa que não tenho nem ideia de como pode ter sido nosso diálogo. Só sei que trocamos contatos, na época Orkut e MSN, e ficamos de marcar alguma coisa.

As incontáveis vezes que o vi
2008–2013

Depois do nosso primeiro encontro, os próximos foram simplesmente naturais. Parecia certo estar ao lado dele. Nos apaixonamos instantaneamente.

Apesar da nossa empolgação, logo no início eu recebi uma notícia que comprovaria que na minha vida as coisas nunca seriam assim tão fáceis. Ele iria passar 6 meses em Lisboa estudando. Esse tempo foi sofrido, mas nos falávamos várias vezes por semana. Tinha medo que a distância pudesse esfriar o nosso relacionamento ainda tão frágil, mas na verdade eu acho que só potencializou.

Já no final, eu perguntava que dia ele iria chegar e ele desconversava. Ele enfim chegou, um dia depois do meu aniversário de surpresa. Com um presente nas mãos e outro no sorriso.

A partir daí, engatamos em um relacionamento sério, embora não sem percalços e questões no caminho. Em um período de namoro a distância, Rio — São Paulo, estávamos melhores do que nunca.

Ele vinha quase toda semana me ver. Dizia que não era só por minha causa, e implicava dizendo que eu estava muito convencida. Mas nas 6 semanas que passei nos Estados Unidos, ele não veio nem uma vez. Apenas fatos.

Guardo ainda a ansiedade da sexta, o dia que deve ser cientificamente comprovado como o mais longo e arrastado do mundo. As tais borboletas faziam festa no meu estômago, mas quando ele finalmente chegava tudo estava bom novamente.

O fim de semana passava rápido, e não nos desgrudávamos. Logo passamos a conhecer todos os amigos um do outro, e eu fui especialmente bem recebida em sua família.

O domingo era a pior parte, e até hoje sinto o gosto amargo de despedida desse dia naturalmente melancólico. Quando ele ia de avião na segunda de manhã, dormíamos juntos mais uma noite e adiávamos a despedida para um momento que eu não conseguia raciocinar tão bem.

Ele me acordava com cafuné, somente quando já estava pronto. Lembro perfeitamente da sensação de ser acordada com o cheiro de seu perfume, sua mão macia e seu cabelo ainda molhado. Amor, estou indo. Eu me despedia e só assim conseguia não chorar. Eu voltava a dormir, mas meu sono já não era igual. Faltava alguma coisa.

Na hora de ir embora da sua casa, eu sempre olhava ao redor. Percebia o quanto ficava vazia. Eu adiava o momento de ir embora, e ficava perambulando pela casa. Tomava café, e voltava pra cama, tentando sentir a sua presença de novo. Às vezes nos falávamos por telefone enquanto eu ainda estava lá, e eu gostava de fantasiar que ele só tinha ido para o trabalho e estaria de volta à noite. Durante o dia, eu faria as minhas coisas e quando ele chegasse faríamos o jantar, conversaríamos sobre o nosso dia e trocaríamos massagens no pé.

Uma das maiores sensações de felicidade que já experimentei até hoje era quando ele fazia suas surpresas. Em algumas, ele deixava passar o fim de semana inteiro para me contar no domingo à noite que iria passar a semana no Rio. Eu pulava no seu abraço e enroscava a perna na sua cintura.

E nos víamos todos os dias subsequentes, nem que fosse para tomar um açaí na esquina da minha casa ou ver um filme. Marcávamos almoços corridos no Centro da cidade. Todo tempo com ele durante a semana era extra, um brinde que me ajudava a lidar melhor com a distância.

Outras vezes, ele chegava sem aviso na minha casa durante a semana. Em uma segunda sem graça, tocava a campainha e surpresa, era o amor da minha vida. Até hoje quando ouço a campainha, tenho a leve sensação de que vai ser uma notícia boa. Mas normalmente é só a farmácia ou uma visita pouco empolgante.

Praticamente não brigávamos. Quando estávamos juntos, pequenas coisas que em outras condições poderiam virar discussões pra gente era motivo de riso. Levávamos na brincadeira, porque sabíamos que seria desperdício passar minutos que fossem brigando.

Teve uma vez que eu que resolvi surpreendê-lo. Tirei uma semana de férias no trabalho, comprei uma passagem para domingo à noite e na hora da despedida mostrei minha mochila pronta. — Vou com você, posso?

Ele me beijou e disse que eu era a mulher da vida dele, que sempre teria espaço pra mim. Fomos juntos até a rodoviária e não acreditamos na nossa sorte quando vimos que eu havia comprado por coincidência um bilhete exatamente ao lado do dele. Dormimos abraçados, e aproveitamos a escuridão para riscar o item “ônibus” da nossa lista mental de lugares inusitados. Nós tínhamos um certo fetiche com locais públicos…

Ao chegar segunda de manhã na madrugada fria e cinzenta de São Paulo em junho, pegamos um táxi. Antes de entrar ele me olhou e disse que eu tinha o poder de transformar aquela que seria mais uma de suas madrugadas deprimentes em uma grande alegria. Eu fiquei feliz de ter conseguido dar isso a ele com um gesto relativamente simples e me perguntei porque nunca havia feito isso antes.

Ele iria deixar as coisas em casa e ir direto para o trabalho. E eu ia passear por aí. Tinha levado livros, e queria conhecer alguns pontos turísticos de São Paulo. Por uma semana, levei exatamente a vida que eu queria levar com ele. Eu fazia minhas coisas durante o dia, e de noite ficávamos juntos. Me sentia finalmente em um “casal de verdade”, e fiquei até feliz quando tivemos nossa primeira discussão doméstica. Coisa boba, da convivência mesmo. A convivência que eu queria ter e não podia por causa da maldita distância.

Até hoje não sei o que tanto tínhamos em comum para termos ficado tanto tempo juntos. Mas a diferença amadurece. Depois de alguns anos de simbiose, aprendi o valor do silêncio. E ele, a terapia da fala. Por muito tempo, eu seria a única pessoa que guardava seus medos e fraquezas.

Mas eu paguei o preço por ter ensinado isso. Porque o problema foi que ele não aprendeu a se abrir para o mundo. Ele aprendeu a se abrir pra mim. E no momento que eu percebi o quão pesado estava sendo carregar todo o meu peso e mais o dele, eu senti que precisava partir.

Ensaiei muitas vezes. Na hora de falar, emudecia. Abraçava-o e fazia cafuné em seu cabelo sempre macio e cheiroso.

Fui indo aos poucos.

Primeiro o meu interesse pelo sexo foi embora. Virei campeã em desculpas esfarrapadas. As inevitáveis vezes eram mecânicas. Passei a reparar em furos no teto que nunca havia visto antes. A novela ou o jogo de futebol que passavam na TV muda pareciam mais interessantes que nunca.

Ele sempre gozava.

Eu ia ao banheiro e chorava. Voltava pro quarto como se nada tivesse acontecido: vamos pedir pizza? Chegava enfim a parte que justificava porque eu continuava ali. Eu ainda amava tudo nele. Seu cheiro, seu abraço, sua cama. Nossas conversas, a intimidade que aprendemos a construir.

Depois a mente. Eu estava ali fisicamente, mas cada vez mais aérea. Pensava nos meus afazeres, nas minhas questões que eu não mais sabia como dividir com ele e até em outras pessoas, coisa bem rara para a minha natureza predominantemente fiel.

Me perguntava se ele reparava. Eu disfarçava, mas no fundo queria que ele percebesse, deixando sinais de propósito. Queria que ele próprio seguisse as pegadas desse rastro, torcendo para que ele tivesse a coragem que eu não tinha. Torcendo para que ele me ajudasse a tornar aquilo tudo um pouco menos difícil.

Depois fui levando algumas das minhas coisas. Se antes eu tinha uma parte inteira de seu armário pra mim, naquele momento eu já tinha levado quase tudo. Sem dizer uma palavra.

Um dia, nos encontramos em um bar e eu estava disposta a falar tudo como eu havia ensaiado. Chegando lá, eu finalmente falei. Quase de olhos fechados, mas falei.

Obviamente aquele era um péssimo lugar para fazer esse tipo de coisa. Acho que inconscientemente eu pensei que o fato de estarmos em um lugar público faria com que ele tivesse vergonha de se expor. E sem o seu choro, eu teria coragem de levar essa decisão a sério. Egoísmo meu. Mas funcionou.

Na hora de ir embora, me vi indo com ele para o seu carro da maneira mais natural do mundo. Fomos embora juntos, e ele me deixou em casa. Quando deitei a cabeça no travesseiro, me ocorreu que talvez eu não tivesse sido tão clara. Ou, pior, que talvez para se terminar um relacionamento desses não basta simplesmente dizer. Seria um processo, bem longo e doloroso por sinal.

Depois de 4 anos separados, ele morando em outro país, ainda fico nervosa quando recebo, uma vez por ano, uma mensagem. Estou no Rio, vamos nos ver?

O nosso cuidado um com o outro em todas as fases do nosso relacionamento, inclusive e principalmente no término, compensou. Hoje temos uma relação da qual me orgulho. Não temos mais recaídas há muito tempo, somos amigos.

Mas em todas as vezes que nos encontramos depois disso, nunca ousei perguntar se estava namorando. Não sei como reagiria à resposta, e prefiro não saber. Ele faz o mesmo e sinto que é melhor assim.

Um dia tentamos romper essa barreira e ele me contou de um relacionamento seu. Contou que estava feliz, mas que ficava angustiado por sempre comparar todos os relacionamentos que ele tinha ao nosso. Que não conseguia sentir de novo nada parecido.

Em um heroico esforço altruísta e, quem sabe, orgulhoso, me vejo dando conselhos amorosos para o meu ex-namorado, outrora amor da minha vida. Definitivamente uma situação que eu jamais imaginei, e que, diga-se de passagem, não me fazia bem. Cortei o assunto com a minha rispidez característica e ele entendeu o recado. Nunca mais ousou.

Sempre que nos encontramos, percebo a ansiedade das malditas borboletas que não arredam o pé de mim. Os primeiros minutos são sempre um pouco desconfortáveis. Uso meu talento natural para preencher o silêncio com tagarelices, e sinto ele me agradecer mentalmente por fazer isso.

Depois de pouco tempo, já está tudo normal de novo. Uma pizza rápida em uma quarta à noite viram num piscar 3 horas de conversa. As cadeiras no restaurante já estão em cima das mesas e os garçons querem ir embora. Desculpa, juro que não é por mal!

Na hora de ir, um abraço de início meio desajeitado. Não sinto vontade de beijá-lo. Mas que abraço bom. Poderia ficar horas ali.

E assim, abraçados em uma noite fresca de outono, fomos interrompidos apenas por uma buzina.

- Preciso ir.
- Eu sei.

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