As almas não

- Abaixa a música, vai.

- Por que eu deveria?

- Tá alta.

- Te incomoda?

Vencida, suspirou. Já sabia onde aquilo acabaria. Apoiou a cabeça nas almofadas do sofá, meio deitada, as pernas ainda enamoradas com as de Daniela, e deixou suas pálpebras descansarem.

- Deixa…

E suas mãos pareceram sentir o desejo de grito, de rua, de vento, em Daniela. Rápidas, alcançaram-na, acariciaram-na, e nas mãos que se deram foi-se o momento sufocante. Num som harmonioso que não era a música alta que tocava — essa não mais escutavam — beijaram-se, entrelaçaram-se na dança habitual, vagarosamente, até que furiosamente. Elas sabiam que aquilo era só delas. Que independente do dia desgastante, das discussões ásperas, teriam sempre o anoitecer a lhes esperar no sofá da sala de estar. Teriam a paz, os olhos fechados, seriam só elas, nuas e calmas. Era só elas, afinal. E sabiam que não havia nada melhor do que dormir abraçadas em meio àquelas almofadas manchadas, onde mal cabia uma, imagina as duas, pra acordar pra mais uma segunda-feira.

Mas depois do café tem a manhã, vem o almoço, vem a tarde, acaba o dia, chega-se em casa.

- De novo.

- O quê?

- A música. Parece até que é de propósito.

- Se te incomoda tanto assim, abaixa você mesma. Nós duas sabemos como você tem de estar no comando.

Paula arqueia as sobrancelhas. Mãos hesitantes mexem no rádio.

- Sabia que não resistiria.

- Você bem que podia admitir que ainda está brava. — murmura Paula, suspirando.

- Já disse que te desculpei.

O apito chato do microondas salva-as de outro embate. Mastigam os pedaços de frango requentado em frente à tevê, assistindo qualquer coisa que deixasse suas cabeças adormecerem. Quem se desse por satisfeita antes, ia pra cama e a arrumava, enquanto a outra lavaria os pratos. Dormiriam em paz. Dormiram em paz.

Paula acordou, como de costume, mais cedo. Tomou seu iogurte, pegou o elevador, o ônibus, sentou-se em sua mesa. Várias empresas procuravam-na. Algumas grandes, algumas responsáveis por tudo que ela odiava, mas para essas ela não fotografaria. Ela não tinha se vendido! É preciso trabalhar. Mesmo que às vezes isso signifique fotografar modelos que parecem sempre prestes a desmaiar, ou fazer um catálogo para aquela marca cujo comercial tem um quê de machista. Mas em suas fotos lutava! Não havia sido corrompida, não, gostava de pensar que era exatamente o contrário: ao deixar seus ideais intrínsecos às fotos, sabotava o sistema e seus preceitos. Daniela tinha de entender que ceder nem sempre era abdicar. Que ela ainda era uma artista, tão artista quanto Dani. E ainda mais, recebia. Sustentava-as.


- Posso entrar?

- Não! Ainda estou no meio da revelação — veio a voz abafada de dentro do banheiro — Como foi o dia?

Era impressionante o que as fotos faziam com o humor de Daniela. Traziam às noites cinzas um tom de comemoração, contentamento. Quando ficavam boas, quando surpreendiam-na… Alguns ousariam dizer que eram aquelas noites a mantê-las juntas. Noites cheias de amor, de tesão, noites insones nas quais se encontravam em um tremendo torpor onde tudo era amor. Noites agitadas e ainda assim tranquilas. Noites nas quais se lembravam do que haviam enfrentado, noites nas quais reencontravam o que as havia dado a coragem para enfrentar.

Mais do que sexo, era a conversa de dois corpos que haviam aprendido a precisar um do outro — e viciaram-se. Mais do que sexo, era uma confissão de amor mútua, um cuidar, afagar, curar. Curavam-se os copos quebrados, as dúvidas que agora já pareciam pecado.

Noites as quais amanheciam leves, cansadas, tranquilas, esperançosas. Noites fortes.

Ah, mas o problema era quando as fotos davam errado. Um dedo na revelação, um feixe de luz, um foco mal regulado, o filme pouco iluminado. Doía. As lágrimas que Daniela tinha certeza que tornava invisíveis ao sufocar com ironias, mas que ficavam em algum lugar de seus olhos escuros a gritar. A súbita sede, avassaladora, a vergonha inevitável. Não devia ser tanto. Devia significar menos. Mas, embora ela nunca fosse admitir a ninguém, doía mais do que um término de namoro. Do que — perdoem-na — a morte de algum parente. Só não doía mais do que o olhar de Paula. Um olhar de compaixão, de ternura e de desdém. De superioridade. Ah, como se o não sentir fosse uma dádiva. Como se o sorriso bem treinado fosse um dom, como se a virtude estivesse mesmo no meio termo.

Eram naqueles dias que ocorriam suas piores brigas. Quando as fotos eram decepção. Brigas estridentes feitas de gritos monossilábicos cujas palavras pertenciam àquela língua que era só delas. Brigas em que vinha à tona tudo que sufocavam com o amor de todas as noites, com as mãos dadas que acariciavam seus corpos. Brigas das quais ambas saíam derrotadas. Brigas infantis, mais tarde as descreveriam assim. Meio que uma briga entre mãe e filha, Paula diria, conformando-se em ser a mãe. Mas a conversa morreria rápido, mergulhariam num oceano de lembranças daquelas noites. Noites apaixonadas, gritadas, de olhares intensos a batalhar.

Foi em uma daquelas noites que ficaram de olhos roxos pela primeira vez. Foi em uma daquelas noites que Daniela deixou o apartamento e ficou fora por cinco dias. Foi em uma daquelas noites que Paula mandou-a trabalhar, de verdade, não aquelas vendas patéticas que não pagavam nem uma refeição. Foi em uma daquelas noites, a pior, certamente, que desprezou as fotos de Daniela. Disse-lhe que eram ruins. A pior é parte é que mentira. Falara no calor do momento, tudo o que queria era machucar a outra ao máximo. E sabia que assim o faria. Pois sabia que Daniela a amava, apesar de tudo, e sua opinião contava. Sabia que todas aquelas fotos eram dedicadas a ela, eram todas um pedido de amor, um grito de solidão, desculpas, tudo misturado, tudo que Daniela nunca diria.

E ela as desdenhou. Desdenhou as fotografias que lhe faziam tão bem! Que lhe mostravam o motivo de sustentar a outra financeiramente e ainda dividir as tarefas de casa, o motivo de comprar flores no dia dos namorados, de brincar de pega-pega com as crianças do prédio. De querer desistir de seu emprego e levar todas aquelas garotas cadavéricas pra comer alguma coisa, de queimar tudo. Eram aquelas fotografias, não Daniela, que sorriam pra ela no fim do dia. Eram Daniela, também. Talvez até mais que do que a própria Daniela.

Depois dessa noite, em especial, acordaram com uma tremenda ressaca. De tudo. Haviam se destruído. Olhar doía, comer doía, até dormir doeu. Não tinham mais nem a dignidade, o orgulho. Entretanto, ou talvez exatamente por isso, não choraram. Naquela noite, não derramaram lágrimas. Só insultos, palavras agressivas, tristes, raivosas, explosivas. E o desconforto era tamanho que não viam solução. Mas foram dormir. E o dia que veio provou-as erradas, com a covardia que se traveste de amor e, delicada, violenta-nos. Não falaram naquele dia. Deixaram seus lábios curar, calados, as tantas feridas, algumas abertas naquela mesma noite, algumas que apenas nunca tinham se cicatrizado. E choraram ao anoitecer. Por toda a inocência há muito perdida, pelas fotos que antes protegiam o que ainda havia de perfumado nelas, pela beleza que machucava.

Escrito em Julho de 2013

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Manuela Magalhães’s story.