O que se faz quando o que se sabe sobre uma pessoa qualquer
- um gesto, algum significado
três dias passados em meio ao caos -
parece infinitamente maior do que o que se sabe sobre si mesma?

Como se olha nos olhos de alguém
quando o espelho já se tornou insuportável?
- quando o medo de ver-se refletida
- naquelas pupilas dilatadas 
- é suficiente para que o chão torne-se interessante.

Como se explica para alguém que te pede inteira
que você não existe inteira?
- como se explica que retalhos, cola e algodão 
- por mais bonito que fique
- não são e não deveriam ser carne de gente viva.

Como se diz não a uma mão que se estende suplicante, carinhosa,
e com ternura lhe pede que se dispa pela última vez?
- como se explica que o escuro do quarto
- não lhe permitiu dizer que, na verdade,
- nua você nunca esteve.

Talvez, no instante em que o que se sabe sobre si mesma
pareça caber em qualquer silêncio, em qualquer cinzeiro,
em qualquer caixa de presente vazia,
talvez aí seja a hora de apreciar a beleza do vento que passa
e não mais tentar guardar seus papéis, suas caixas,
suas cinzas.
Talvez, quando o espelho tornou-se insuportável,
seja a hora de quebrá-lo em mil pedaços.

E talvez a única coisa que possa ser feita
quando tudo que se quer evitar são os olhos de alguém
talvez aí, de fato,

somente seja possível encará-los uma outra vez, 
para que também eles se desfaçam em cacos de vidro.

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