Salgado

O som do relógio a tiquetaquear o passar da tarde ensurdece Alice e, ainda assim, não é suficiente para preenchê-la. Pela janela, nota o crescente fluxo de pessoas, afinal, já passa das cinco. Alice percebera que, às sextas, a avenida nesse horário tem algo de diferente. Ela não sabe bem o que é. Talvez, se descesse para ver de perto, saberia. Entretanto, sexta tem sobremesa, o que acrescenta uma boa meia hora na preparação do jantar. E descer a essa hora, que perigo, o marido ficaria maluco se soubesse, homem preocupado que é…

Alice suspira, senta-se à mesa, observando o belo apartamento em plena Paulista que o marido conquistara com tanto esforço. A tímida estante de livros ganhados de presente, que quem sabe algum dia interessariam às crianças. O tapete, tão novo que ninguém acreditaria se contasse das inúmeras vezes que limpara vômito de bêbado de lá. As paredes beges sempre prestes a descascar que por algum feliz acaso eram mais grossas na divisa entre seu quarto e o dos filhos, de modo que eles nunca chegassem a escutar urros brutais no meio da noite. Nem seu choro escondido, embora esse nem o homem a roncar do outro lado da cama ouvisse.

Com um sobressalto, Alice lembra-se de que se esqueceu de colocar os copos na mesa. Aliviada pela distração, vai buscá-los. Leva um de cada vez, temerosa, porque, quanto mais se aproxima o anoitecer, mais suas mãos parecem tremer. Quando está a levar o último, um maior, do marido, Alice ouve o barulho de algo quebrando no andar de cima. Assusta-se, soltando o copo, que se espatifa no chão. O estilhaçar ecoa pelo prédio como se fossem centenas os copos a quebrar. Atônita, tenta juntar, tremendo mais do que nunca, os cacos.

Mas é tamanha a tremedeira que ela se corta. Alice corta-se, corta-se com o vidro. Dói. A dor é diferente da que está acostumada: é aguda, é ardida, é ágil. E vai embora, deixando o sangue a escorrer. Como é vermelho, o sangue. Alice nunca havia notado. Na verdade, surpresa, Alice nota que nunca havia sangrado antes. Tantas foram as relações bruscas no escuro, as invasões ébrias, violentas, de seu corpo a acordá-la, e ela nunca havia sangrado. Nunca. Nem em sua noite de núpcias, a fatídica primeira, ela se permitira sangrar.

Agora o vermelho a jorrar vinha como um alívio. O sangue que ela não podia — e notou que nem sequer queria — fazer parar. Como é bonito, o sangue. E há de ser doce, também, imaginava. Intrigada pela suposta doçura do sangue, Alice leva o dedo à boca. E vê que o sangue não é doce, não; o sangue tem gosto de mar. Vem a curá-la, o sangue.

E por um instante, menor que fosse, Alice soube que aquele sangue era dela. Não, não era o sangue de seus pais, que sonharam em vê-la bem casada em São Paulo, cidade grande, sonho que não chegaram a ver realizado, não, nem era o sangue de suas crianças que logo mais voltariam da escola particular média paga pelo trabalho do marido, ah, não. Aquele sangue era só dela. O sangue era vermelho, vivo, ao contrário dos arroxeados espalhados pelo seu corpo. O sangue saía dela, pois era só ela a deixá-lo ir, era só dela aquele sangue que se esvaía e sujava o chão.

Era só dela o sangue, sim. E sentia o ardor do sangue a sair, sentia-o tanto que chorava, não o choro de todas as noites, não, mas o choro convulsivo de quem descobre que o mar vai além do horizonte. Porque o sangue era só de Alice, sim, mas o choro, o choro não. O choro também era da moça do segundo andar que vivia escorregando no banheiro, da vendedora de frozen yogurt que usa cachecol faça o tempo que fizer, o choro era, também, da vizinha que uma vez, quando a flagrou de blusa enganchada no elevador, segredou-lhe um conselho: passa um pente que melhora. Mas agora Alice sabia que melhor que o pente, só é o sangue. Já tinha o que dizer, se ficasse a coragem, durante os silêncios desconfortáveis e espelhados em que a encontrava.

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