Diga tudo, menos linda

“Você é linda”, eu lhe disse. E uma sombra atravessou os olhos dela frente ao elogio. Ela apenas sorriu e me beijou.

Meses depois fui entender o que era aquela sombra. Eu a havia chamado de linda poucas vezes depois, até que em uma delas ela me disse, em tom suplicante “ Não me chama de linda”. Eu assenti com a cabeça, fingi que entendi, mas por dentro não compreendia por que ela recusaria um elogio desses — ela também não me chamava de linda.

Foi quando ela me contou chorando que seu orientador de mestrado dissera que ela tinha um sorriso lindo que eu entendi. E justamente por eu já ter entendido, ela decidiu me contar, me explicar.

Eu sei que eu sou bonita, ela me disse. E não o falo com arrogância, porque eu sei que o que me torna bonita é meu corpo, que não é gordo, são meus traços europeus, é a minha perna depilada, eu sei que seu elogio é um elogio a tudo que eu detesto.

Mas principalmente, eu odeio que você me chame de linda porque eu amo ouvir isso. O sentimento de quando elogiam minha inteligência, minha astúcia ou minha coragem não se compara ao que sinto quando me chamam de linda. Eu aprendi que o melhor que posso ser é isso, linda. E que ser linda bastaria. Só que ser linda não basta, ser linda ocupa meu tempo e me entristece. Acordo com pressa, já atrasada e ainda assim troco de roupa mais de uma vez: de primeira, sempre coloco algo confortável, então me olho no espelho e hesito. Hesito porque não quero me render, não quero mudar minha roupa. Mas mudo.

As camisetas femininas nas lojas ou tem decote, ou são regatas, ou mostram minha barriga. Os shorts e saias são curtos. As roupas não parecem que servem para nos vestir, como as masculinas, meros utensílios práticos, não, elas servem para nos enfeitar. Tornar nosso corpo um quadro a ser observado, milimetricamente planejado. As mulheres demoram mais tempo para se arrumar para as festas e isso já é piada. Que piada triste.

O perverso é isso: eu amo ser chamada de linda. Eu me importo, eu tiro fotografias de mim mesma quando estou bonita. Eu sei que não se deve usar um sapato escuro, com uma meia calça clara e uma saia escura, eu sei que ou se pesa a maquiagem na boca ou nos olhos, eu sei tudo isso, logo eu, que sempre adorei matemática. Eu nunca pedi pra saber essas coisas. Não pedi pra querer me sentir tudo menos feia.

Queria que meu corpo fosse só minha casa, não uma vitrine. Que meus pelos não ofendessem ninguém e não fossem pauta do jantar em minha casa. Queria que meus olhos fossem só por onde eu olho, e minha boca por onde eu falo — não queria que fossem quadros a serem maquiados para que eu fique mais palatável.

Mas eu sou bonita, e ainda assim sei que isso é sorte.

.

Eu nunca mais a chamei de linda, me mantive em silêncio: não sabia do que mais chamá-la.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Manuela Magalhães’s story.