Capitães da Areia e o dilema da liberdade
Ler Capitães da Areia é como um encontro angustiante com o Brasil. A obra de quase 80 anos, ainda carrega questões e problemas atuais, pois aborda grandes e profundos dilemas da sociedade brasileira. Há os dilemas dos abismos sociais em um país desigual como o Brasil, dos limites da solidariedade, da infância sob as condições da rua, da solidão, do amor, do ódio e, acima de todos, da liberdade. É uma história de crianças renegadas por tudo que as cerca, sem qualquer tipo de amparo emocional ou psicológico. São crianças que tem que lutar pelas necessidades mais básicas da vida, como comida e abrigo, e ainda contra toda uma cidade que as persegue. São crianças adultas, mas que ainda sim são crianças.
A primeira publicação desse livro se deu em 1937. Ele foi censurado e queimado em praça pública em São Paulo e Salvador. Jorge Amado foi preso. Mas por que ele incomodou tanto? Talvez por ter trago a perspectiva de vida de crianças de ruas, por ter mostrado que não, elas não eram culpadas, ou talvez por ter mostrado a necessidade da luta para qualquer tipo de liberdade e igualdade entre ricos e pobres, ou talvez por tudo isso junto. O fato é que a própria questão da liberdade precede a história. A prisão e a censura. Ela vem do nosso próprio contexto histórico-social, que renegou e ainda renega a igualdade e, por isso, a liberdade.
Capitães de Areia, enfim, é o nome do grupo de meninos que vivem num trapiche, na “Cidade da Bahia” (Salvador) e sobrevivem do furto. Não seguem leis, é certo. Mas, apesar disso, têm um sistema de organização muito eficiente, acompanhado de um código moral muito próprio e forte. É proibido o furto entre eles e tudo que conseguem é repartido. Eles só têm uns aos outros e por isso são extremamente solidários entre si. Acolhem todo menino desamparado da rua. No entanto, são temidos e odiados por muitos na cidade, que os veem como meros ladrões. Querem colocá-los no reformatório ou no orfanato, lugares para os quais muitos já haviam ido e fugido devido aos maus tratos.

Poucos eram aqueles que lhes protegiam de alguma forma. Há o padre José Pedro de vocações comunistas (as quais ele não entende e procura afastar, pois haviam lhe ensinado no seminário que aquilo ia contra os preceitos de Deus), há a mãe de santo Don’Aninha e há o Querido-de-Deus, que ensina aos meninos a luta da capoeira, que também é uma dança. O padre pensara em levar os meninos para morar com as senhorinhas que frequentavam a missa, mas logo percebeu que aquilo tiraria a essência dos Capitães da Areia e que aquelas senhorinhas eram por demais hipócritas para conseguir lidar com os meninos. Então, ele passou ajudá-los como pôde, defendia-os perante a cidade e os aconselhava. Era um padre que ia contra todos os seus superiores, um padre em constantes dilemas, pois aqueles sempre lhe faziam duvidar de suas boas ações.
A liberdade é o conceito máximo de vida dos Capitães da Areia. Eles tinham algo muito claro em suas mentes: não poderiam trocar a liberdade que tinham por nada.
“A liberdade é como o sol, o bem maior do mundo”
Essa frase aparece diversas vezes no livro e mostra que a liberdade era algo vital para aqueles meninos, o que guiava e dava sentido as suas vidas. Eles eram os donos das ruas de Salvador, conheciam cada passagem e cada canto da cidade, eles eram aqueles que mais a amavam. No entanto, há uma alegria e uma tristeza que envolve o conceito de liberdade. A alegria de se sentirem donos de si e donos da “Cidade de Salvador” e a tristeza de saber que eram renegados por quase todas as pessoas, pela mídia e pelo próprio Estado.
O excesso de liberdade implicava também na ausência de qualquer conforto e qualquer amparo. Dessa forma, cada um a sua maneira, tentava inconscientemente suprir a carência de atenção. Alguns estabelecem relações sexuais entre si (o que era proibido pelo grupo, mas nenhum se importava realmente), Pirulito passava o dia orando; Professor passava os dias lendo e pintando; Gato arrumara uma namorada prostituta com o dobro de sua idade; Sem-pernas odiava a tudo e a todos, mas mesmo assim arruma um cachorro do qual cuidava com carinho; Pedro Bala, chefe do grupo, estuprava meninas na praia.
Essa questão do estupro é muito triste e angustiante. Em nenhum momento do livro se fala na palavra “estupro”, mas fica claro que para aquelas crianças sexo à força era algo natural, até porque a violência para eles sempre fora naturalizada pelo próprio contexto em que viviam; não sabiam o que era carinho ou amor; mas, ao contrário, conheciam bem o que era perseguição e violência física e moral. E era isso que eles continuavam reproduzindo. Eles não pareciam perceber o ciclo de violência no qual estavam inscritos. Tanto é que quando chega Dora, a única menina a pisar no trapiche, a maioria deles acha que ela estava sendo levada ali para ser estuprada. Apenas o Professor, João Grande e, posteriormente, Pedro Bala proibiram que qualquer um encostasse nela, mas isso porque perceberam que ela era uma menina, criança como eles. Se ela fosse mulher, no entanto, seu destino provavelmente seria outro.
De qualquer forma, a chegada de Dora é marcante. Ela passa a ser mãe, irmã e amiga daqueles meninos, para Pedro-Bala mais do que isso. Para surpresa de todos, ela também era valente e corajosa, fazia questão de participar de tudo, de cada furto e cada possibilidade de ajudá-los. Ela se tornou uma capitã da areia, assim como eles. Com ela, uma menina de 14 anos, eles conhecem o carinho. Sua partida implica na partida de muitos membros do grupo.
Pirulito decide seguir a vida religiosa, o professor vai para o Rio de Janeiro ser pintor, Gato se transforma em um típico vigarista. Pedro Bala, por sua vez, descobre que seu pai era um grevista e que havia morrido por conta da greve. Ele não sabia o que era greve, soube, todavia, que seu pai era um homem valente e de luta. É só depois de muito tempo que percebe que seu pai morreu lutando por liberdade, a liberdade dos pobres operários. Mais uma vez a liberdade é colocada em jogo. E Pedro percebe em si a ânsia de lutar por essa liberdade, pelas crianças abandonadas, pelos pobres, pelos operários e por aqueles que estavam submetidos à cidade alta.
Uma cena muito forte do livro é quando eles entram em um carrossel pela primeira vez. Como qualquer criança, ficam extasiados, maravilhados. Para muito aquele foi o dia mais feliz de suas vidas. Naquele momento eles puderam ser como as crianças que tinham pai e mãe. A verdade é que, enquanto crianças, os capitães da Areia não tinham liberdade, pois a infância lhes foi tirada muito cedo. A própria liberdade que tanto prezavam, não foi também fruto de uma escolha ou de uma busca, mas sim de uma sucessão de fatalidades que lhes transformaram em meninos de rua. Mas, mesmo assim, sendo a liberdade a essência de tudo o que conheciam como vida, eles jamais poderiam trocá-la por nada.
Apesar de toda miséria retratada, a história não é determinista. Há ainda o espaço para a luta e o reconhecimento da própria situação, que leva os meninos a se debaterem diante do destino que lhes foi imposto. Em certo sentido, o livro é muito otimista inclusive, pois mostra que vários meninos conseguiram superar aquela situação de miséria extrema. Pedro-Bala transforma-se em um grande revolucionário, João Grande vai embora num barco; o Professor se transforma em um renomado pintor que retrata as crianças abandonadas e por aí vai.. A liberdade para eles não viria nem amor nem ódio, mas sim da luta.
