Romance em 7 dias

Ou Bauman é seu livro de cabeceira

Domingo: já são 9 horas da noite e você, mais uma vez, acha que encontrou o amor da sua vida em alguma rede social. Trocam “oi”, número de telefone (Whatsapp, quero dizer) e likes no Instagram. Você chega até a compartilhar com ele/a aquele disco ótimo que escutou no Spotify. Ele/a diz que também adorou. É, dessa vez vai ser diferente. Amém.

Segunda: você pensa em chamá-lo/a para a sua casa. Mas repensa e conclui que as coisas não precisam ser tão rápidas. Chama para um café. O seu café preferido: com decoração vintage e todas essas coisas que fazem você pagar 12 reais num café latte (a.k.a. pingado). Ele/a chega. É, os filtros do Instagram ajudaram. Mas você nem lembra disso: ele/a usa um tênis lindo e ainda comenta que aquele livro do Bauman, “Amor líquido”, é seu livro de cabeceira. Os astros parecem estar realmente ao seu lado. E, nossa, quantas coincidências: vocês até usam até o mesmo antidepressivo. Quero sair daqui casado/a — você pensa.

Terça: vocês trocam mensagens, mais likes no Instagram e chega a pensar em adicioná-lo/a no Facebook. Mas seria muito. Opa: ele/a te adiciona. É, ele/a curte “Gina indelicada” e compartilhou um texto há 6 semanas defendendo a redução da maioridade penal. Mas você releva. Ninguém é perfeito. De qualquer maneira, você não precisa mandar mensagem de “Boa noite”, né? Ele/a que o faça! Ué, ele/a mandou! Mandou um “Boa noite” e um emoticon. Você responde 2 minutos depois. Tempo suficiente para pensar na decoração do casamento, nos filhos e numa playlist nova no Spotify para comemorar essa mudança de guinada na sua vida.

Quarta: você manda a mensagem de “Bom dia”. Justo. Ele/a demora 3 horas para responder. Injusto. Mas, sabe como é, correria lá no trabalho. Ele/a diz que quer te ver novamente. Você chama para uma jantar na sua casa na quinta. Ele/a aceita e pergunta qual vinho levar. Você logo avisa a melhor amiga que está apaixonado/a. Ela pede o Insta do pretendente. E aprova. Neste momento, você já acredita que irão até dividir uma conta na Netflix. Oremos.

Quinta: mundo cruel. Injusto. De merda. “Gato/a, mil desculpas, mas hoje não vai dar, surgiu um imprevisto”. Você diz que entende. Mas entende o caralho. Já tinha arrumado o apartamento, comprado comida e pensado na roupa — o que foi realmente difícil. Você não vai mandar “Boa noite”. E nem vai receber.

Sexta: ele/a manda “Bom dia” e você, vomitando corações, responde. E ainda acrescenta um emoticon. É, a carne é fraca. Ele/a pergunta se você pode hoje. Claro que você pode. Mas vai dizer que tem que ver algumas coisas e depois responde. Responde 14 minutos depois dizendo que está tudo combinado. 8 horas da noite e ele/a chega. Em ponto. Não trouxe vinho, mas levou umas cervejas. Você tinha planejado cozinhar. Mas passou um tempo a mais na academia para ver se ficava mais gostoso/a e perdeu o horário. Acabou pedindo japonês. E, bônus: transando.

Sábado: é, foi bom. Quer dizer, talvez não tenha sido. Mas só estamos no começo, né? Ou no fim. Amanhã eu mando uma mensagem. Ou espero ele/a mandar.


Próximo/a.