Hoje, como raramente
se instalou no subconsciente uma idéia intermitente
Raro de ter, difícil de não querer
Geralmente, sem mente
na jocosa aura do inconveniente.

Mas, sem mais entes, vamos para o Ado.

Passado, contado
e agora deixado
Em seu molde sagrado
um toque desleixado
Chorado, parado

Colorido

Partido para um tal atelier
para um tal museu
para um tal Prado.

De um remetente
para um destinado.

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Num passo perdido entre as árvores contemplo um muro sujo. Ao lado, uma apresentação majestosa da confiabilidade que dizem necessário ter na vida. Passos arrastados, porém, determinados, acompanhados por um estilo jovial.

Um caminhão passa despejando amostras do futuro ar que terão nossos descendentes.

Lentamente caminhando, dou-me conta da hora atrasada, e num instante me camuflo por entre a multidão, determinando passos mais largos, afetados pelo tic-tac surdo do relógio de uma padaria.

Não quero olhar pela janela.
Hoje alguém morreu.

A velhinha desapareceu.
O caminhão, um recife para os peixes.
E o papel…
agora se perde entre as milhares de partículas de poeira que dançam no feixe de luz da porta entreaberta.

[“no dia em que fui mais feliz eu vi um avião se espelhar no seu olhar até sumir”]

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Captura de Francisca, 03–03–2021

Quem olha nem nota
que é muito mais ameno
do que um olhar atento

Quem nota nem olha
que o próximo movimento
será um breve momento

Quem olha nem nota
que é anedota esse afago
e que será intenso

Quem nota nem olha
o que habita no curto
espaço de tempo

Quem olha nem nota
que o vento é apenas
o ar em movimento

Quem nota nem olha
que o tempo não existe
neste momento

E que o coração nem sempre
sintoniza no silêncio

E lá vem o vento, dizendo que o ar
— Ah! o ar.

Neste sim, habita o silêncio.

(Atualizado em 23.05.22)

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Cusco, Peru (2017)

Tantos arranjos e notas sobre a mesinha e eu perdida nessas linhas,
essas linhas que me perdem e eu arranjada sobre essa mesinha. Essa mesinha que me perdeu, e essas linhas que deixaram, levaram não sei o quê. Deixaram o que não era meu, me deram, me largaram, assim,
eu e a mesinha.

Essas linhas agora se juntam comigo, eu e a mesinha.

Minhas mesinhas, minhas linhas que agora caem dos meus olhos, rabiscam meu rosto, sobre essa mesinha.

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