Aprendendo a voar

Era única. Uma folha que fazia sombra. O ar gélido. O chão manchado. A única folha. E ela.


Todas as vezes que ela caía, corria e se colocava de cócoras, num gesto suave e determinado, tendo sob sua cabeça a única folha que para o chão falava baixinho: soombra. Ficava ali, com orvalhos contornando sua forma. Imitava majestosamente a posição de um feto. Ao menos lembrava dessa lição, havia aprendido e tinha já sido, em tempo ido, um feto.

Passado o momento, terminava sua prostração e caminhava para fora daquela sombra. Mas fagulhas de um jocoso monólogo atingiam sua melancólica estrutura. Tinha que contar, era fato. Então corria desesperadamente para o rumo, que nada dizia.

Rumo, rumo, rumo, ru-mo, ruu…

O eco tamborilava, espalhando sua canção pelos ares. Sabe, de certo modo, até eu abandonaria. Mas a única coisa que aniquila essa idéia é o seu coraçãozinho batendo e a vontade camuflada por esse prazer opaco que escorria entre os dedos, e caía junto com os orvalhos. Eles diziam sim para ela, que logo aprenderia a voar. A diferença é que nem todos acreditavam. Porque ali, não eram todos que pisavam.

Mas que seja. Mesmo sem os todos, e só com poucos, pouquíssimos na verdade, era com quem ela dialogava. E apreciava então, novamente o ar gélido, o chão manchado, e a folha, sem mesmo estar debaixo dela. Seu corpo se aquecia, e todas as noites conversava sozinha, contemplando as estrelas do seu teto. Estava abraçada. E queria todas as vezes, com o ouvido sob o peito, sentir a melodia que dizia:

Estou aqui, estou…aqui…

Chegou o outono. E a única folha nunca mais falou para o chão. Tintas em tela, numa paisagem esfolada. A melodia era o vento que fazia. Tinha tantos, os nomes que colecionava, que um a um iam caindo como folhas. Aconchegada, abraçou a folha sob a célebre aurora.

Telas esfoladas, rumos abertos.
E ela se despediu do chão.

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