ATRASADO

Há meses não nos víamos, apesar disso, nos falávamos com certa regularidade. Sempre tentando marcar o tão adiado encontro, mas esse encontro nunca acontecia, porque a vida é corrida, nos atropela, porque nós nem sempre conseguimos encontrar as pessoas que queremos e gostamos na hora que queríamos e gostaríamos. Um belo dia, sozinha em casa eu me lembrei de você. Liguei, queria te ver naquela hora, mas naquela hora você não podia ou não queria ou não conseguia, estava atrasado com suas coisas da vida…

Combinamos dois dias mais tarde. “Ok sábado, mas dessa vez você me liga! … Ah sei lá a hora que você puder… Sim eu topo um almoço.” No dia, pouco antes do horário combinado eu tive muita vontade de cancelar — a noite anterior havia sido muito louca . Para ser sincera eu achava que você não ia me ligar, eu estava cansada, meio com preguiça de existir. Mas eu sabia que se eu cancelasse iria ser difícil conseguir acertar outro dia, e eu estava com saudades, com vontade de te ver. Você ligou! Então eu fui! Você chegou atrasado! 20 minutos creio eu, enquanto te esperava bebia um expresso e uma água pensando na vida.

“Alô, Sim eu já cheguei. Não sem problemas, vem com calma, eu estou aqui no café do cinema te esperando …” Aceitei suas desculpas sem ouvir suas palavras. Algo haver com a sua avó! Acho engraçado como você e os seus motivos para as mancadas comigo são sempre histórias de um realismo fantástico, desculpas ruins. Histórias ruins demais para serem ficção, aliás, são daquelas histórias que o ser humano até considera inventar uma mentira crível pois a verdade é, na verdade incrível. Mas era você e eu, como sempre, você e eu sem formalismos, você e eu sem críticas, apenas você e eu “Sem problemas baby… eu estava aqui de boa…. não, não esperei muito tempo … apenas o tempo de um café e uns pensamentos esparso”.

Gosto desta nossa história em que meias palavras, meias verdades e mentiras sinceras nunca são necessárias. Eu sorri enquanto não ouvia suas desculpas e perguntava o que você gostaria de fazer. Você não sabia, sabia apenas que tinha fome, mas não tinha a menor ideia de onde ou que queria comer. Eu não tinha fome e nem a menor vontade de decidir o que fazer. Todos os lugares e todas as opções, para mim eram ruins, problemáticas. Muita fila, pouca opção, muito caro, muito sujo, muito barulhento, muito saudável….

Não queria mesmo decidir, deixei para você. Acabamos passeando pela Paulista em busca de onde comer, você num rompante decisório lembrou daquele lugar. Um lugar que não era assim tão perto, mas eu topei. Fomos conversando, andando lentamente rumo ao tal local.

Durante a caminhada eu percebia o tom da nossa conversa. Acho engraçado o tom das nossas conversas. Elas são dos mais variados temas, sob os mais variados tópicos — sociologia, antropologia, política, política pública, política partidária, militância, vida, vida acadêmica, crises com a vida acadêmica, crises com a vida, crise, amor, crise com os amores — mas independente do tema ou tópico nossas conversas obedecem sempre o mesmo tom. Elas permanecem dentro de limbo de uma “buffer zone” ; um pouco à cima da superficialidade, mas, sem a pretensão da profundidade. “Não eu não vi aquela exposição ainda…. Você leu o livro novo daquele francês que a gente adora, é traduziram ficou ótimo…. Não gostei do último filme do Woody Allen, acho que não gosto mais dele, sim também acho que ele perdeu a mão…. A mas as meninas disseram que estava realmente apaixona pois topei cruzar a cidade para sair com o cara…. não acho que você não conhece… quer dizer talvez conheça sabe aquele amigo …. Ah eu estou cansada, jurei que não ia fazer campanha, mas não consigo me afastar da política … Nossa eu também preciso urgente publicar , mas não consigo terminar meus textos … Nossa eu entrei numa super crise com o Doutorado mas decidi que preciso terminar … Não eu continuo com o mesmo orientador, não quero mudar agora… Como assim você estava namorando. Ah por isso que o senhor sumiu, você nunca me apresenta suas namoradas você apenas some e reaparece solteiro novamente ..”

Falamos sobre tudo sem nunca dizer nada. Não nos expomos, ou exibimos apenas o suficiente; não nos entediamos um com outro, mas, não há profundidade em nada que é dito. Nunca nos revelamos por inteiro. Medo de revelar nossos piores defeitos? Não sei ? Mostramos apenas o que desejamos que o outro veja. Há sempre uma tensão sexual no ar, mas a verdade é que trocamos segredos e fraquezas nos nossos deslizes semânticos. Nossos segredos são trocados apenas naqueles momentos específicos em que nos encontramos de guarda baixa, desatentos . Quando nossa sensatez se dilui em álcool, drogas, luxuria os três juntos ou separados mas gerando momentos de pura euforia.

Momentos perfeitos! Momentos perfeitos que naquela tarde estavam atrasados. Enquanto caminhávamos naquela bela tarde de outono nossos defeitos estavam estrategicamente escondidos, os sentidos aguçados, nada de deslize ou desatenção, nenhuma vulnerabilidade era anunciada naquele papo cordialmente agradável. Sem álcool, drogas ou pensamentos libidinosos. Sem euforia, ela estava escondida enterrada sobre muralhas de cordialidade . Atrasada …

Podíamos ter nos despedido no fim do almoço. Haviam sido duas horas agradáveis, eu poderia ter ido para casa descansar e você poderia ter ido cuidar da sua vida. Mas o ânimo, que estava atrasado, finalmente chegou. No fim do almoço! A cordialidade e a sensatez continuavam lá, mas havia uma pequena euforia se anunciando. Entramos no templo de Cultura da família Setubal, onde diversas instalações moderninhas nos esperavam. “ Claro, faz séculos que eu não vejo uma boa instalação mas podemos tentar…”

Foi surpreendentemente não chato! As vezes eu me surpreendia com o pedantismo que saia da minha boca, e logo em seguida me desculpava e caíamos na gargalhada. “Não faz seu estilo esta babozeria Má” “Ah como assim!! Babozeira! “ “Sim Babozeira, não dá para achar tudo isso deste monte de penduricado, rs” “Tá, você está certo . Não dá” …. “Me sequestra, me leva para uma aventura destas?” “ Você se deixando assim vulnerável, pago para ver .. .” E em meio a coisas que entendíamos e coisas que não entendíamos conseguimos ficar plenamente à vontade um com outro.

A cordialidade se esvaia e dava espaço para a nossa mente relembrar o porque mesmo que nós, mesmo nos vendo muito pouco, gostamos tanto um da companhia um do outro. “Porque não fazemos mais isso?” “Porque a minha agenda é pior que a sua e porque e o senhor consegue ser mais enrolado que eu e juntos somos essa dupla que demora seis meses para fazer um simples encontro sair !” Saímos da instalação moderninha e fomos direto para o bar! Com a ajuda do álcool a cordialidade se esvaiu. A sensatez deu lugar a luxuria . E nos entregamos ao prazer da nossa companhia.

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Café moderninho dentro do bairro moderninho. Sempre cheio e um pouco barulhentos. “ Desculpa, amiga, hoje eu não to boa, desculpa meu atraso…”

“Não eu ainda não decidi o que fazer … Não eu não fiz o teste…Não ele não está em SP. Sei lá tá viajando fazendo aquele curso … 6 semanas atrasada amiga 6 semanas estou surtando “

M: Contar o que ? Oi lembra aquele dia incrível semanas atrás que no fim da noite você foi escroto e me pediu para não confundir as coisas que aquilo nunca ia ser mais do algo casual ! Pois bem ! Acho que você se enganou e aquilo virou algo mais do que casual ! E eu to grávida. …

Não… não, não vou contar, não tem o que contar ! Eu sequer sei o que eu vou fazer com isto

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