Contos da Meia Noite — O primeiro encontro.

Ela estava perdida a dias.

A floresta era grande de vegetação densa. De manhã tudo reluzia, o sol invadia os espaços entre as árvores e a caminhada se tornava fácil, mas ao anoitecer era uma escuridão da qual luz nenhuma adentrava iluminar. Sentia que não podia confiar em nada ali, nem nas árvores, nem nos animais, nem nas plantas e flores, nem os frutos e cheiros, nem os sons. Principalmente os sons. Estava prestes a anoitecer, faltava menos de uma hora e não havia nenhum abrigo, a mochila pesava e não havia nenhum alimento. Não havia nada. Ela sentou-se em baixo de uma imensa sequoia e retirou uma manta vermelha. Ficou ali sentada esperando um socorro, um sinal, uma voz que a guiasse.

A temperatura caiu bruscamente. Estava no inverno e por mais iluminado que fosse o dia, o calor de mil sóis não derreteria toda aquela neve. Era um frio rígido e continuo, e a jovem estava com fome, sono e não fazia ideia qual era seu destino final. Foi quando seus pensamentos foram interrompidos por um barulho. Por trás das árvores saiu um pequeno ponto vermelho que se aproximava em sua direção. Aquela raposa deitou na sua frente, e com seus olhos fixos ficou a encarar a jovem. Se passaram 2 horas e a pequena raposa continuou na mesma posição. Não tentou atacar, nem roubar, e não foi embora nenhuma vez. Foi quando a jovem cedeu e se levantou, ao observar o persistente animal pensou: “Essa raposa não irá embora, ela quer confiança, pois então que a tenha”.

Já era noite e a jovem não poderia ficar ali esperando o frio a congelar. A raposa se levantou também, e começou a andar em sua frente, olhando para trás como se certificasse de que a jovem a estava seguindo..

A jovem e a raposa andaram por uma hora, até a raposa parar. A astuta raposa encontrou um pequeno chalé de madeira. A jovem se aproximou e bateu 3 vezes na porta. Ninguém atendeu. Ela colocou a mão na maçaneta e abriu a porta com tanta facilidade que na verdade, foi a porta que se abriu para ela. O animal ficou sentado em frente a casa e não quis entrar. Ao entrar no chalé, se deparou com uma sala aconchegante. Não havia ninguém no chalé, exceto um pequeno gato preto dormindo próximo a lareira. Ela caminhou em direção a cozinha e havia uma outra porta que levava aos fundos do chalé. Ao abrir a porta, se deparou com um imenso jardim. Ainda estava noite, e 6 mulheres estavam sentadas em uma grande mesa redonda. Estavam a sua espera.

O gato saiu correndo passando por entre as pernas da jovem e pulou no colo daquela que estava com o rosto encoberto. “Sente-se” disse aquela com uma coruja a seu lado. Era uma noite fresca, um daqueles raros momentos da qual há um casamento perfeito entre o frio que congela e o calor que queima, o clima estava tão harmonioso que é como se ambos extremos se anulassem para criar outro clima. A jovem deixou suas coisas na porta e foi em direção ao único lugar vago na mesa. A lua tinha um brilho intenso e o céu estava bem estrelado. A jovem ainda estava na mesma floresta, mas em algum local escondido dela. “Que lugar era esse?” — ela pensou intrigada.

Na mesa uma das mulheres a encarava friamente. Ela tinha uma postura de rainha e vestes negras, a olhava de maneira severa e como algo inferior. E enquanto a Rainha Negra a encarava, uma serpente vermelha se enroscava entre pés da jovem. “Ela certamente não gosta e não confia em mim”, pensou a menina. Ao lado da Rainha, estava uma moça de cabelos longos e ruivos. Ela tinha um ar de “que tudo sabe”, seus olhos estudavam todos os movimentos da jovem. A moça sábia deu sorriso ao perceber os olhos intrigados da jovem e abriu um livro de couro preto em uma determinada página. A terceira mulher que encarava a jovem, tinha um dos olhares mais reconfortantes. Ela tinha um cabelo preto em um rabo de cavalo, usava uma longa capa e um arco e uma flecha se encontravam em cima da mesa bem em sua frente, como se estivesse de sentinela esperando o primeiro inimigo surgir por entre as árvores. Ela era uma caçadora solitária, uma guardiã. Seu lobo branco estava deitado no chão a seu lado, e ela sorria de uma forma diferente para a menina. Era um olhar de confiança.

Embora fosse uma situação estranha, a jovem se sentia segura. Era como se tudo aquilo lhe fosse bastante familiar. Enquanto pensava, a jovem continuou a observar as mulheres daquela mesa.A mulher tenebrosa com o gato no colo, continuava de rosto abaixado coberto por um capuz. Tinha uma sensação de morte vindo daquela mulher, talvez a mulher tenebrosa fosse a Bruxa daquela mesa. Ao lado da Bruxa, estava sentada a Mãe. Não dava para saber se de fato ela era mãe de algo ou alguém, mas o olhar e calor que emanavam daquela mulher certamente eram da mais pura essência maternal. Seus cabelos castanhos, longos e ondulados não cobriam a ternura de sua feição. E conversando quase que silenciosamente com a Mãe, estava a última mulher da mesa. Ela tinha a pele branca, de cabelos amarelo ouro. Era quase idêntica a Mãe, mas havia algo de sensual e divino em seu jeito. Desde seus olhos azuis da cor do céu, ao seu perfumado cheiro doce. Era como ver uma obra de arte viva. Aquela certamente era uma Musa ou uma Deusa,e carregava consigo em sua mão direta um belo e adornado espelho.

“Minhas caras damas, estamos aqui está noite para celebramos a morte. Um sacrifício há de ser feito. Não garanto sucesso, não garanto proteção aos males do mundo, não garanto amor, não garanto criação, não garanto paz nem conhecimento. Esse ritual jamais foi concretizado e menos ainda celebrado. A caminhada a 3 anos foi iniciada, e aqui hoje está entre nós, minhas caras, aquela que será morta para o nascer de um novo dia. Minha jovem neófita, deve se perguntar o que a trouxe aqui, correto?”

“Mulher sábia, suponho o porque estou aqui.”

“E o que é sua suposição?”

“Acredito que devo me preparar para efetuar a Grande Travessia”.

“Deve se preparar? Minha cara virgem, você já está preparada!”

“Então, o que me trouxe até aqui?”

“Você mesma minha jovem. O desejo em morrer lhe trouxe até nós. Está noite, será uma das últimas de sua breve vida. E sim, você deve fazer a Grande Travessia e chegar até o Abismo.”

“Eu irei fazer isso hoje, cara sábia?”

“Você é a senhora de seu próprio tempo. Somente você poderá decidir se deseja cair ou ascender. Estamos aqui somente para observar e iniciar o ritual. A caminhada lhe reserva por alguns momentos alguns protetores, mas a Grande Travessia é solitária, e a Descida é acompanhada por seus próprios demonios. Estamos aqui hoje, somente para lhe dar algumas instruções e marcar o tempo, levante e abra suas mãos minha jovem”.

“Marcar o tempo?”

A mulher sábia nesse momento se levantou e caminhou em direção a jovem, com um punhal fez um corte vertical fundo em cada palma, e enquanto a jovem gritava e lhe disse: “A partir de hoje, seu tempo foi marcado. Hoje você agoniza, adoece, sentirá essa dor profunda em ambos os mundos, mas chegará o momento que isso irá cicatrizar. Quando seu próprio corpo cicatrizar seus cortes, o que lhe restará é a marca. A marca é a garantia de que terá que fazer a travessia, e após ter ela em suas mãos é que estará pronta para descer. A marca será curada após o término de toda a sua jornada. Mas há uma grande esperança para você. Cortei suas mãos e você não recuou como as outras, isso mostra que tem coragem. Por mais perdida e escondida que esteja, ela é a única coisa que no momento você terá. Essa não é a primeira nem a última vez que nós encontraremos entre os dois mundos. Agora o tempo depende de você.”

A mulher sábia se afastou e retornou a mesa para pegar o livro. Começou a recitar um canto desconhecido em uma linguagem desconhecida, enquanto a jovem continuava de pé a sangrar. A jovem fechou os olhos, suspirou e respirou fundo. Fechou em punho ambas as mãos, mas ao fazer isso sua dor só aumentou. Abriu as mãos novamente e se permitiu sangrar.

Aquela noite estava apenas começando.

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