Acostumado
Dia desses uma das minhas obturações caiu. Fui ao dentista e descobri que a única forma de consertar era fazendo o tal do canal. Depois de fazer, tinha que colocar uma pecinha pra fechar, o bloco.
Que sufoco foi colocar aquilo. Fui uma, duas, três e tantas vezes àquele consultório pra testar e ver se encaixava direitinho no lugar. Voltei tantas vezes que, já numa dessas dezenésimas, quando o bloco ainda não encaixava direito, decidi ficar com aquele mesmo.
Tá bom?, Marília perguntou. Eu balancei a cabeça num sim cansado, já não aguentava mais aquilo mal encaixado, sobrando aqui ou faltando acolá. Mesmo assim, consenti e saí com a peça um tanto quanto mal escolhida.
Dez minutos depois ainda me incomodava. Dois dias e eu tava acostumado, servia quase que perfeitamente. Eu já nem notava se havia excesso ou falta em alguma parte do pequeno objeto de metal. E tá aqui até hoje.
Demorei meses pra achar o bloco certo e o errado mesmo deu-se por certo. Não sabia eu que a grande questão era o costume. Pouquinho tempo e qualquer uma daquelas caberia como se fosse meu próprio dente.
Quem sabe as coisas fora da minha boca também não andem assim? Acordar cedo, almoçar mais tarde, ser mais responsável e passar por uma paixão deslavada: a gente se acostuma a cada pedacinho. E bem mais rápido do que parece.
