Nunca deixe de ser diácono!

Ao meu eterno amigo Sérgio Fontes,
(diácono, pacífico e inquieto)
e a todos os diáconos da Igreja.

“No grau inferior da hierarquia estão os diáconos, que recebem a imposição das mãos não para o sacerdócio, e sim para o ministério” (1). Que pobreza é ser diácono! Estar num grau inferior tendo sido ordenado para o serviço. Os pobres diáconos são como o pobre de Nazaré que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (2) .

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Hoje, 10 de agosto, é dia de São Lourenço; padroeiro dos diáconos. Como diácono, Lourenço tinha o encargo de assistir o papa nas celebrações e administrava os bens da Igreja, dirigia a construção dos cemitérios, olhava pelos necessitados, pelos órfãos e viúvas. E recebeu a ordem de entregar, em três dias, todo o tesouro da Igreja a Valeriano, o tirano. E ele assim o fez.

“Que esplêndido espetáculo! 
Reúne filas de pobres e exclama, 
indicando aqueles míseros: 
“ Eis as riquezas da Igreja!.”(3)
“É preciso que vocês, diáconos, visitem os pobres e levem ao conhecimento do Bispo aqueles que estão necessitados” (4)
“Verdadeiras e perenes riquezas 
são dos fiéis os pobres; 
zombado o avaro se impacienta: 
a vingança e as chamas apresta.” (3)

Recebeu, à fogo, a coroa do martírio durante a perseguição de Valeriano, em 258. Amarrado sobre uma grelha, foi assado vivo e lentamente quatro dias depois da morte de Sisto II e de seus companheiros.

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Há um certo tempo, um “quase sacerdote” chegou em nossa pequena paróquia. Tivemos um primeiro e breve contato. Para dar as boas vindas a esse novo paroquiano resolvi apresentá-lo para meus amigos:
 
- “Este é o novo seminarista!” 
 
Pensei que era mesmo, mas ele logo me corrigiu:
 
- Sou diácono e não seminarista!
- Eita, e num é tudo a mesma coisa? Quase-padre?
- Não, diaconia é um grau do sacramento da ordem, ele pode fazer casamentos, batismos…
- E é?
- É, o diácono recebe o mesmo Sacramento da Ordem que é recebido pelo Bispo e pelo Padre.
 
E a aula continuou por seis meses. José Antonio me falava da diaconia e eu o via vivê-la. Ensinou-me que existem diáconos permanentes que podem ser casados ou celibatários. Ensinou-me que a estola do diácono fica na diagonal para lembrar a toalha que Cristo amarrou na cintura antes da ceia derradeira.
 
Quando sua ordenação sacerdotal se aproximou ainda mais, houve um novo e inesquecível diálogo:
 
- É… Vai deixar de ser diácono para se tornar padre.
- Nada disso!
- Eita!
- Quando me ordenei diácono recebi um cartão dizendo “mesmo que chegue a ser bispo, nunca deixe de ser diácono”! Entendeu Marcelo?
- Opa!
 
Caiu a ficha! Agora eu sabia o que ele queria dizer com marca indelével. Era a aula final do curso “ame o diaconato em seis meses”. De fato, posso testemunhar que até hoje o padre José Antonio vive sua diaconia em plenitude, servindo sua paróquia mesmo sendo pároco.

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Outro grande diácono da igreja foi Francisco de Assis. Não conheço evidencias de sua ordenação diaconal, mas conhecemos muitas de sua vida e postura verdadeiramente de um diácono. Em uma celebração do Natal, as fontes revelam que Francisco participou vestindo uma dalmática. Fortes e precisos eram suas pregações. E exercia com grandeza o ministério da caridade
 Seguindo o exemplo de Francisco, todo cristão é chamado a servir o irmão. Isso é viver a diaconia, mesmo sem ser ordenado. Por isso, deixo a cada um que lê o mesmo apelo deixado sabiamente ao padre-amigo José Antônio: “NUNCA DEIXE DE SER DIÁCONO!”.

Marcelo Augusto Monteiro

(1) Lumen Gantium 29
(2) Mt. 20,28
(3) HINO A SÃO LOURENÇO, de autoria de Santo Ambrósio
(4) Diascalia Apostolorum, III Const. 13,7