As crianças e nossas metas

Marcos Bauch
Dec 3, 2019 · 4 min read

Vivemos em uma sociedade que nos cobra uma constante atenção à horários, agendas, cronogramas, compromissos e responsabilidades. Seja pro trabalho ou para as atividades de casa, como fazer almoço, buscar a criançada, levar pra aula, etc.

E isso está tão arraigado no nosso jeito de levar a rotina, que nem percebemos que levamos isso para muitas áreas de nossas vidas. A gente faz promessas pro ano seguinte, traça planos para as férias, cria projetos pro verão, compra um plano na academia e um roteiro no nutricionista, escolhe programas de estudo, estipula metas e missões e ações e indicadores… tudo muito cartesiano, racional, metódico, sistemático.

O ponto é que todas essas nossas tentativas de encaixotar e sistematizar a vida vêm sempre acopladas a um objetivo final. Cada vez que nos fixamos à um projeto ou um plano sabemos o quê queremos atingir lá no final e raramente aproveitamos o percurso até lá. Ficamos tão focados no alvo que esquecemos de olhar para os lados e desfrutar o caminho.

Quando começamos um esporte, por exemplo, estabelecemos metas, uma programação e sabemos o quê queremos atingir ao final, mas o percurso sempre parece pesado, chato, monótono, feito com muito esforço e uma disciplina rígida. Poucas vezes paramos para apreciar o tanto que já avançamos ou as pequenas vitórias conquistadas, como levantar para treinar naquele dia chuvoso e preguiçoso.

E é aí que nossos filhos, sobrinhos, enteados, netos, sempre nos salvam da rigidez e pragmatismo que insistimos em atribuir à nossa existência.

Eu, que sou um cara que gosta de organização e foco à metas claras, sempre sou chacoalhado para fora dessa minha zona de conforto quando levo meus filhos para passear ou quando brinco com eles.

Isso porquê as brincadeiras de crianças bagunçam todas essas nossas noções cartesianas e racionais de tempo e objetivos. Elas são ótimas em escancarar meu apreço e apego à organização e propósitos.

Por exemplo, a gente começa a montar os trilhos do trenzinho e o trajeto nunca sai do jeito que eu imaginava que deveria ser. Ou quando eu acho que consegui achar uma brincadeira que vai entretê-los por horas e ela acaba em quinze minutos “porque já estamos cansados de brincar, papai”, ou quando brincamos de pega-pega e o pegador acaba se entretendo com a borboleta e esquece de procurar a gente, ou quando saem correndo e rindo sem lógica nenhuma (pelo menos pro adulto que está olhando).

Um mundo à explorar e você querendo chegar à algum lugar?

Quando vamos passear então, é uma festa de mudança de percursos, objetivos, horários e cronogramas! Se a ideia inicial era ir até o parquinho ou a quadra, isso pode mudar de uma hora para outra, sem aviso prévio e sem olhar para trás. É tanta coisa que temos para ver no caminho, tanta coisa pra explorar, procurar, coletar e investigar, tantas árvores para subir, tantas pedras pra pular e tantas moitas pra se esconder, que o parquinho parece um propósito muito pequeno e distante.

E eu tenho me acostumado cada vez mais à esse jeito “desordenado” que as crianças têm de encarar o tempo e a vida. Tenho aprendido a soltar minha necessidade de alcançar aquilo que me propus e aproveitar mais as flores, folhas, bichos, pedras, entulhos e montes de areia que aparecem pelo caminho. Não é algo assim tão fácil e rápido — até porque algumas vezes eu ainda me pego suspirando quando já estamos à poucos passos da quadra e eles decidem voltar atrás para subir no pé de manga — , mas tem sido um exercício muito bom e valioso.

Nesses tempos em que planejamos tudo e que nossas vidas parecem um grande cronograma cheio de atividades e finalidades, nossos filhos nos ensinam rapidinho que a gente não deveria se prender ao resultado final, o percurso até lá já pode ser o próprio objetivo, a própria diversão.

Marcos Bauch

Written by

Escritor profissionalmente amador de assuntos aleatórios

More From Medium

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade