Não parem de olhar as crianças

Marcos Bauch
Feb 3 · 5 min read

Este fim de semana fui com a família passar o dia no clube. Em dado momento fui com as crianças brincar na piscininha infantil, que estava cheia de outras crianças.

Eu fiquei sentado na borda enquanto ia propondo várias brincadeiras: jogar e pegar bola, imitar animais, correr na água, fazer topetes estranhos com o cabelo, desafios de encontrar coisas e mais mil-outras-badernas. Ficamos mais de 1 hora nos divertindo ali na piscininha.

Quando saímos da piscina para comer um lanche percebi um fato que me chamou a atenção.

Conforme brincávamos, outras crianças vinham se juntar à nossa bagunça e, no final, eu já não estava cuidando só dos meus dois filhos, mas de umas sete crianças ao mesmo tempo, das mais variadas idades. Todas (incluindo meus filhos, claro) me pedindo para brincar, me pedindo para olhá-las, me pedindo para percebê-las, me pedindo atenção.

Aquilo me fez parar para pensar (na verdade só consegui parar para pensar sobre isso à noite, depois que as crianças já tinham ido dormir, mas vá lá):

Eu não tinha nenhuma guloseima para oferecer, nenhum celular/tablet pra mostrar, nenhum grande espetáculo pra chamar a atenção, nem mesmo um brinquedo para compartilhar. Ali, na piscininha, eu estava apenas oferecendo minha imaginação e minha atenção à eles. Nada além disso.

E, mesmo assim, eu virei o foco, o entretenimento, o divertimento, a alegria de toda uma criançada que nunca tinha me visto.

A gente gasta enormes quantias de dinheiro e tempo em brinquedos, jogos, videogames, fantasias, séries de televisão, canais do youtube, entretenimentos, gadgets, mas acabamos esquecendo que o quê as crianças mais querem — e precisam — é da nossa atenção, nosso olhar atento à elas.

Ao mesmo tempo, nenhum adulto — pai, mãe, tio, tia, avós, cuidadores de qualquer tipo — se aproximaram para participar, interagir e brincar junto. Nem ao menos para supervisionar e/ou ver se está tudo bem. Claro, deveriam estar de olho, sentados nas mesas ao redor da piscina, mas, para mim, isso me pareceu muito estranho. Como não se animar e querer estar ali compartilhando das risadas da criançada?

Há alguns anos atrás escrevi numa rede social:

Vejo muita gente comentar que cuidar de crianças é cansativo — e concordo plenamente. Fico pensando que não é cansativo no sentido de trabalho braçal (embora o trabalho braçal também esteja incluído), mas porque pode ser a primeira vez, na vida de muitos, em que alguma atividade requer atenção plena e constante, por vários minutos seguidos.

Claro que sempre existirão as aulas chatas e as reuniões monótonas do cotidiano nos cobrando atenção, mas, nessas ocasiões, é muito fácil desligar do que está acontecendo e fazer outra coisa: desenhar na agenda, batucar na mesa, sonhar acordado, fuçar no celular, etc.

Mas com crianças não.
Elas são muito hábeis em nos trazer de volta ao momento presente; em nos fazer prestar atenção nelas. Ainda bem que elas sempre nos salvam quando tentamos fugir da dança viva que acontece à nossa frente.

Mas, infelizmente, tenho que me corrigir. Acho que nem mesmo as crianças estão conseguindo nos acordar e nos trazer de volta ao momento presente. Acredito que as novas gerações estão crescendo com uma incrível carência de atenção.

Nestes tempos, em que smartphones e gadgets roubam nossa atenção, em que as redes sociais nos apresentam relações artificiais, em que trânsito e trabalho consomem valiosas porções do nosso tempo, em que a propaganda invade nossa vida sem pudor, em que brinquedos cheios luzes e sons suprem o contato humano, em que babás e creches se tornaram a terceirização da criação e em que as teorias defendem que é preciso desgarrar, desapegar, desencantar, desmamar, desfraldar, desvincular as crianças cada vez mais cedo…

Nada é mais urgente e necessário do que encontrar tempo livre, tempo “imaculado”, para oferecer atenção, contato, carinho, olhar, calor, exemplo, risada e presença para as crianças.

É justamente por meio da nossa atenção que as crianças se sentem valorizadas e apreciadas. É por meio do nosso olhar que nós ensinamos e as direcionamos. É por meio da nossa admiração que elas percebem seu lugar no mundo e se entendem como ser social. Sem algum adulto que lhes dê atenção, como vão aprender a oferecer a sua própria atenção e presença, o seu próprio carinho e acolhimento aos outros?

Não deveríamos terceirizar isso para uma babá, uma creche ou um cara sentado na beirada da piscina. Estar presente para as crianças é o coração, a essência da (ma)(pa)ternidade.

***

E, claro, não me refiro só a dar atenção nos momentos alegres e felizes, como no dia da piscininha. É importante que a gente também não desvie o olhar nos momentos tumultuados e complicados. Em meio às brigas, birras, teimosias e desobediências também não deveríamos nos desligar e nos refugiar olhando para a tela do celular ou da TV. Temos que estar ali, presentes, conscientes, atentos.

O mestre vietnamita Thich Nhat Hanh tem uma frase que vale muito à pena lembrarmos nessas horas:

“Quando uma pessoa faz você sofrer, é porque ela sofre profundamente e seu sofrimento está transbordando. Essa pessoa não precisa de punição, ela precisa de ajuda.”

Como poderíamos oferecer ajuda, se não estamos nem presentes ou nossa atenção está tomada pela raiva ou impaciência?

***

Prestar atenção à vida a nossa volta é algo à que precisamos nos acostumar, que precisamos praticar. Chega até a ser injusto com a própria vida ter de competir com os milhões de estímulos de um celular. Não tem como a realidade — ou as crianças e suas peripécias — serem tão eletrizantes e tão cheias de excitações quanto um joguinho online ou um Youtube, mas não tenho dúvidas que prestar atenção nelas é muito mais gratificante, pra você e para ela.

Da próxima vez que você sentir aquela vontade de acessar o celular enquanto as crianças se divertem sozinhas, quando você ficar tentado a dar um brinquedo para suprir sua ausência, quando você está com preguiça de ir lá brincar, pare e experimente dar um presente realmente precioso e valioso para as crianças: você, por inteiro.

Marcos Bauch

Written by

Escritor profissionalmente amador de assuntos aleatórios

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