O caos como aliado

Marcos Bauch
Nov 1, 2019 · 5 min read

A vida de solteiro ou de casado te engana. Pense comigo. Quando a pessoa é solteira ou casada-sem-filhos, é bem capaz que ela não se sinta como se estivesse sempre imersa na roda da vida, dia após dia.

Claro, tem a rotina do trabalho, 8hs diárias e tal. Mas sempre tem uma novidade, um entretenimento, uma série nova, um filme, uma baladinha, uma viagem, um bom vinho, um fim de semana fora do comum, um jantar, um alguém novo, pra te fazer esquecer da rotina e do eterno ciclo de satisfações e insatisfações que formam o tecido das nossas vidas.

Fica fácil seguir pela vida sem precisar contemplar o que estamos fazendo, com tantas opções e entretenimento nos cobrando atenção e nos entregando distração.

Com filhos a coisa muda de figura.

A rotina do trabalho continua igual, mas, somada à ela, agora tem a rotina das crianças que inclui, entre muitas outras pequenas-rotinas, coisas como colocar pra tomar banho, dar banho (sim, são coisas distintas mesmo, pode acreditar), arrumar e trocar, preparar comida e dar de comer, levar e buscar de uma infinidade de lugares e colocar para dormir. Parece pouco, mas cada item desses daria pra descompactar em outros 3 parágrafos.

Fora isso, também tem o fato de que séries, baladinhas, viagens, vinhos, jantares e encontros especiais serão apenas lembranças de uma galáxia muito, muito, distante. Tão distante que as memórias passam a ficar borradas e você passa a ficar feliz quando lembra do ano em que algo aconteceu. Nem da mais pra pensar nos meses e dias dos acontecimentos, porque toda sua memória esta sendo usada para lembrar que amanhã é o dia da aula de capoeira e que fulaninho precisa levar uma muda de roupas e que o leite acabou e que o carro precisa ser abastecido e que o relatório ainda não ficou pronto e… UFA.

Nesse furacão que é a ma(pa)ternidade, onde o caos impera e os pais e mães viram especialistas em resoluções de conflitos armados, diplomacia entre potências nucleares, negociações persuasivas, tratados de diretos humanos e convencimento sob pressão, pode parecer que não da pra tirar nada de bom disso tudo.

Mas eu acho que dá. Acho que o principal presente dessa rotina desvairada e alucinada — que só quem tem pequenos agentes do caos morando em casa entende — é aprender a abrir mão do controle.

A gente gosta (ou gostaria) de ter controle sobre tudo, não é? Pô, que bom seria se a gente tivesse controle sobre o que vai acontecer amanhã, controle sobre o quê o outro está pensando, controle sobre os hábitos dos outros, controle sobre as vontades dos outros, controle sobre nós mesmos e nossas vontades e nossas ansiedades e nossas emoções…

E é por isso que a vida de solteiro ou casado-sem-filhos é um tanto enganosa, porque ela te da uma pequena sensação de controle. De poder usar o seu tempo e fazer o quê quiser, mais ou menos na hora que quiser.

(Aqui preciso abrir um parênteses, pra dizer que, embora a gente tenha essa pequena sensação de controle, a verdade mais profunda é que não temos controle nenhum. Somos totalmente reféns da nossos desejos e emoções incontroláveis, justamente porque não sabemos guiar nossa própria mente. Se você não acredita, tente não ser levado pela vontade de comer um doce/chocolate/café da próxima vez que bater aquela vontade)

Mas, voltando, se solteiros ou casados-sem-filhos temos a sensação de que temos controle sobre o que fazemos, ou sobre as situações, quando os filhos chegam o que muda é que a sensação de que temos controle sobre qualquer coisa acaba. Na hora que os filhos demandam atenção, ou pedem pra gente fazer alguma coisa, ou insistem em algo, a tal impressão de controle é estraçalhada todinha e acabamos perdendo o prumo (ficamos nervosos, impacientes, cansados, de saco cheio, com raiva, etc, etc).

Da pra dizer que não somos nós que nos rebelamos e reclamamos, são as nossas vontades, desejos, hábitos e impulsos que se rebelam, justamente porque eles nos puxam pra um lado (da preguiça, do ego, da distração, do sofá, sei lá) e a criança puxa pro outro lado. E isso é ótimo! Porque revela, sem sombra de dúvidas, todas as nossas pequenas zoninhas de conforto que tanto tentamos manter intactas e sob controle.

E já que estamos mergulhados nessa anarquia ambulante, porque não aproveitar e aprender a abrir mão do controle? Aprender a conviver com os livros espalhados pelo chão ou o sapato sujo de lama na sala. Aprender a aceitar que não temos controle sobre o quê as crianças vão fazer em seguida e estar bem com isso.

Se te parece um cenário muito otimista e distante (como parece pra mim), tente começar escolhendo as “batalhas” em que você quer entrar — em outras palavras, escolha uma ou outra situação em que você ainda quer tentar manter o controle. Pode ser a toalha molhada na cama ou os brinquedos espalhados, tanto faz, escolha o que te afeta e comece daí, devagar, uma coisa de cada vez, mas não tente controlar tudo de uma vez só. Você não vai conseguir e só vai ficar ainda mais estressado(a).

Afinal, a vantagem de ter a desordem morando ao lado é que temos a oportunidade de tentarmos nos tornar amiga dela (ou até nem ligar para ela). É justamente ai que está a graça da coisa toda. O caos e as crianças (sinônimos em qualquer casa, menos no dicionário) nunca nos deixam esquecer que nós não temos controle algum sobre o que acontece à nossa volta. Duvido que você tenha tido uma oportunidade tão intensa e constante quando não tinha filhos. Então, aproveite!

Marcos Bauch

Written by

Escritor profissionalmente amador de assuntos aleatórios

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