A polissemia da violência
Por Marcio André dos Santos

O que é violência para você? Levar uma facada é violência? Evidente que sim. Ninguém é merecedor de levar uma facada ou um tiro por motivo algum. Nem preto, nem branco, nem mulher, nem homem, nem brasileiro, nem estrangeiro, nem indígena, nem quilombola, nem LGBT, nem hétero, nem criança, nem morador de rua, nem trabalhador/a, nem idoso/a… Ninguém!
Olhar para uma criança negra nos olhos e saber que será vítima do racismo na escola, no shopping, no parque, é violência para você?
Ser assassinado por defender direitos humanos de favelizados, das mulheres negras, dos LGBTs, de famílias de policiais, é violência para você?
A homofobia, o sexismo, o estupro, o auto-ódio é violência para você?
Ter suas terras ancestrais invadidas, seu povo convertido à força e obrigados a cultuar deuses que não se parecem contigo, mulheres do seu grupo étnico estupradas sistematicamente, conhecimentos imemoriais descaracterizados, é violência para você?

Ser um jovem negro ou negra e saber que pode ser (e é!) morto pelas forças de segurança do estado só porque você é jovem negro/a, é violência para você?
Ser preso político porque um poderoso grupo encastelado no judiciário, no congresso nacional, na mídia, odeia suas idéias e o que você defende, é violência para você?
Nenhuma violência é boa. Não precisamos e não desejamos a violência na política, ainda que seja uma realidade concreta em nosso país. Não fazer políticas públicas suficientes para superação do racismo é violência. Não fazer política pública de combate a pobreza também violência.
Entretanto, a verdade é que negros, pobres, mulheres, mulheres negras, jovens negrxs, quilombolas, indígenas, imigrantes e outros tantos grupos sofrem violências políticas diariamente! Alguns tipos de violência detonam a nossa auto-estima de sermos o que somos, enquanto outras tantas violências vão nos matando fisicamente, espiritualmente, epistemologicamente, psiquicamente.
A violência não é um vir-a-ser, algo que está por vir. A violência é o que nos caracteriza como nação.
A violência colonial. A violência sexista. A violência racial. A violência da branquitude. A violência econômica e da exclusão social. A violência dos discursos de ódio. A violência religiosa contra os povos de santo.
É preciso combater todos os tipos de violência. Especialmente a violência dos meios de comunicação em tempos de eleições. Cidade Negra já dizia “armaram e se deram bem, não querem saber de ninguém…”
Somente nós, o povo, somos capazes de produzir a anti-violência. Contraditoriamente a anti-violência dificilmente será produzida sem um outro tipo de violência. Ou justiça. Pense nisso.
