Amor de Dragões
Por Marcio André dos Santos

Havia um bom tempo em que ele esperava por este momento. Desconfiava seriamente que ela também. Quando o via se queimava toda, inteirinha. Aproximou-se sorrateiro, pé ante pé e tascou-lhe um beijo. Foi um beijo daqueles: faiscante, incendiário!
Ela ficou entre o gostar e o não gostar, numa zona cinzenta que arrepia mas não anima. Ele quis saber:
- É que parecia que você também queria, já tem tempos a gente fica se olhando, reparando um no outro …
- Não é isso — disse ela. É que pode ser perigoso. Você sabe.
- Mas perigoso como? É só um beijo. Sonho com isso dia e noite, noite e dia. Meu coração fica febril só de pensar em você, nas tuas curvas…
- E se você se machucar? Detestaria te ver sofrer… É tão jovem..
- Mas não vai machucar não flor. Amor não doi…
- Doí sim! Doí amar, doí beijar, doí abraçar e doí até para.. para..
- Para o que?
- Ah cê sabe.
- Não sei, fale.
- Sabe sim!
- Não sei não, diga!
- Doí também para.. para…ver estrelas — disse constrangida.
- Mas flor, te juro, vai ser tudo com carinho, tudo com jeitinho, tudo com…
- Para!! Da outra vez que você prometeu fiquei dias toda ferrada, com queimadura e tudo.
- É que éramos inexperientes, dois bobinhos na arte de amar. Dizem que com o tempo a gente vai se aperfeiçoando até chegar ao zênite da coisa.
- Zênite do que? Não, não. Não a gente. Não é da nossa natureza isso, essa coisa: amar. Devíamos no contentar em voar juntos, explorar o espaço…
Frustado, Drago se afasta em prantos. Que absurdo alguém recusar o amor, a delícia do beijar, pensou. Ela, mais madura, mais vivida, sabia o que fazia. Afinal dragões não podiam se beijar já que eram labaredas que lançavam contra os outros ou na raiva ou no êxtase. Correu e vôou o vôo das dragonas rumo as montanhas geladas de algum reino inventado.
