As mortes matadas
Por Marcio André dos Santos

Mataram o Bina
Mataram o Marquinho
Mataram o Serrote
Mataram a Solange do 12
Mataram o Neguinho
Bandidos? Ladrões? Traficantes?
Não, era tudo morador da quebrada
Tudo trabalhador
Bina, pretão, vivia no corre com sua moto nova
Os PM o “confundiram” com bandido e meteram tiro na cabeça
Marquinho era mecânico e gostava de tomar cerveja no bar do Zé
Tirou a camisa e acharam que em seu bolso havia pistola, droga..
Levou 10 tiros a queima roupa!
Serrote vivia arrumando briga com geral, era pavio curto
Mas tinha uma barraca na feira, vendia legumes e frutas
Chegava lá cedinho, tipo 5 da matina
Solange do 12 trampava faxina na casa das madames, escrevia uns raps cabeçudos pacas e tinha dois filhos
Um dos moleques quer ser astronauta
Se assustou com a subida repentina dos canas no morro, mandaram parar
Não parou e foi fuzilada
Neguinho?
Neguinho sou eu! Já morri. Alias, me mataram de morte matada…
Neguinho é você, que é preto também
Neguinho é meu primo
É meu pai
Meu irmão, teus manos, teus parceiros
É a rapaziada do futebol, é a galera que tá soltando pipa
É o moleque que tá sentado ali, com caderno na mão, cheio de sonhos..
Nos matam porque nos acham fáceis de morrer
Estão acostumados
Nem sai na mídia, nem aparece no face, zap, nada
Nos matam por sermos negros
É preto, é pardo, é moreninho, foda-se como te enquadram
Vão te matar, simples assim!
Normal já.
Nos matam de tantas formas diferentes que os modos de morrer já escasseiam
E escasseia também a nossa paciência com tanta carnificina.
