Negríssima moça baiana

Por Marcio André dos Santos — 15 de agosto de 2016.

Meus olhos antes não luziam, não brilhavam

Não havia ali nem mesmo aquele faiscar inesperado

De quando o sol lambe, desejosamente, as luzes reflexas na pele do mar

Era tanta secura que fazia inveja ao Saara inteiro

Tórrido, rocha sobre rocha

Azedume de sei lá quantas milhares de almas

Perdidas, desamparadas, alheias a tudo

Nem azul, nem púrpura, nem o verde escuro da mata

Nem brisa, nem prenúncio de sonhos

Até que me aparece você

Uma gota dentro da chuva

Dessas raras como o bombolear do beija-flor

Mais densa que todas as ondas reunidas

Seus olhos tinham mais paixão

Que o prateado do Taj Mahal no fimzinho da tarde

Era tão sagrado quanto o riso da negríssima moça baiana

De batom azul, cheia de blacks e certezas e slogans e bandeiras

De radicais paragens

Vai ver morava ali, na Boca do Rio

Ou então passava apressada somente

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    Marcio André dos Santos

    Written by

    Poeta, professor, cientista político e ativista do movimento negro.

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