Zé Aguabenta e os sonhos sonhados

Por Marcio André dos Santos

Havia a barraca que vendia laranjas, limões, abacates. Outra que vendia verduras de todos os tipos e a que vendia condimentos, pimentas, temperos para carne e cozidos. Outra ainda que vendia peixes vivos e mortos, sardinhas, tainhas, corvinas, corvinotas, namorados, vermelhos. Sem esquecer da barraca em que cada saquinho com três tipos de legumes pagava-se um real e cinquenta. Mas dentre todas a que mais chamava a atenção, na habitual feira livre de domingo, era a barraca que vendia sonhos. Sim, sonhos. Não os sonhos que compramos em padarias, repletos de açúcar e calorias. Os sonhos vendidos naquela barraca ali eram sonhos autênticos, reais, materiais em sua imaterialidade.
 
 Quem os vendia era o Zé Aguabenta, assim o chamavam. Sujeito estranho, barbas longas, bigode, sempre de amarelo (dizia que queria ser lembrado como sol do mundo, queimar sem machucar, iluminar vidas). Enquanto os outros feirantes chegavam na feira carregados de mercadorias, Zé Aguabenta trazia somente uma maleta e um banquinho no estilo cineasta. Parecia a vida era um filme em seus olhos. Sentava ali e estendia uma placa onde dizia:
 
 “Vendo sonhos. Qualquer um. Não é magia ou feitiço ou coisa que o valha. Vendo-os a unidade ou em lote. Aviso, porém, que não devolvo a quantia investida. A mercadoria é entregue na próxima noite, infalivelmente”.
 
 Não tinha como não chamar a atenção do populacho. Uma velhinha que devia ter uns oitenta e pouquinhos anos se aproximou, olhou para a cara do Zé Aguabenta fixamente e disse: “Eu quero um sonho moço. Quero viver até os cento e trinta. Quero bater a marca do Niemeyer. É possível?”

Zé Aguabenta, calmamente, pegou um bloquinho de anotações e anotou nome, data de nascimento, residência, dieta preferida e perguntou o motivo do sonho. A velhinha, sentindo-se ofendida, praticamente invadida retrucou: “Ué, além de todas essas informações o senhor ainda quer o motivo é? Pois muito bem! Lhes dou! Quero viver até os cento e trinta pra ver na merda que vai dar aquele casamento do meu filho. Falei pra ele que aquela lambisgóia não presta mas ele não quer me ouvir”.
 
 Zé Aguabenta ouviu com parcimônia e anotou tudo. Depois disse: “tudo bem senhora, viverás até o ano de 2042. Terá uma tossezinha ou outra, uns desmaios eventuais, mas nada que assuste. Não garanto que teu filho chegará até lá. Esse é outro preço”.
 
 Feliz da vida a velhinha foi embora. Levou um sonho e com o troco comprou bananas. Chegou um jovem rapaz, tipo uns 25 anos, desengoçado, pouco atraente. Leu a placa e quis saber se havia promoção no lote de sonhos. Zé Aguabenta disse que depende do sonho que iria comprar. O jovem então falou: “eu quero namorar simultaneamente as irmãs do apartamento 302. Luisa, Clara e Marcela. Todas belíssimas, gostosas, mas que me ignoram absolutamente. Faço de tudo pra chamar a atenção, mas ela não me notam. Pareço uma sombra, mergulho em total invisibilidade. Quero que amanheçam apaixonadas por mim, implorando meus beijos e prometendo casamento e o escambau. Quero dormir todo dia com as três”.
 
 Após anotar cada detalhe, Zé Aguabenta comentou: “Não tem problema. O problema, aliás, será você administrar tudo isso depois. Tá preparado? Tem bom emprego, saúde boa?” O jovem ficou inebriado com a possibilidade do sonho e não deu trelas para as ressalvas do vendedor. Já que era um lote, o sonho não saiu barato e tinha cara de gasto pro resto da vida.
 
 Tempos depois, já quase no fim da feira e depois de dezenas de sonhos vendidos, surge na barraca uma criança com sua mãe. Ele, já alfabetizado, leu rapidamente a placa e ironizou: “Que mentira!! Sonhos não se vendem moço. Não é produto, nem uma coisa que se carregue”. Zé Aguabenta, acostumado com todo tipo de gracinhas que dizem em uma feira livre, respondeu simplesmente: “Te desafio a comprar um sonho e garanto que irá realizá-lo”.
 
 O garoto, pinta de desafiador, encomendou o sonho de ser presidente do Brasil quando tivesse quarenta anos. Mais do que isso, queria que todo o seu staff, todos os ministros, deputados e senadores fossem negros como ele. Encabulado, Zé Aguabenta no início disse que era sonho caro demais. Logo confessou que desses sonhos não tinha mais. Esgotou no estoque. O menino desatou a gargalhar junto com sua mãe. “Viu, não falei? Tudo mentira! Como não tem sonho de ser presidente negro? Temos até um ministro negão, Joaquim Barbosa, acho. Por que não posso sonhar em ser presidente do Brasil?”
 Zé Aguabenta, apressado em arrumar a mala, disse simplesmente: “É que na semana passada a prefeitura esteve aqui e me exigiu somente uma coisa para me autorizar a trabalhar: que eu não vendesse sonhos subversivos ou audaciosos demais. Ou cumpro essa ordem ou venderei o que? Abacaxis? Ainda tenho um lote de sonho de ser mestre sala da Portela, quer?”.