Precisamos falar sobre os 30 anos
Escrito por: Marcela Nogueira
Semana que vem completo 30. Nasci em 12 de setembro de 1988. Há 30 anos…
Estive empolgada com a ideia de fazer 30 anos. Inventei um significado pessoal para ocasião, o que me motivou pensar e fazer tanta coisa bacana que, ainda que não exista um “portal mágico” onde eu entre com 29 e saia com 30 bem resolvida na vida, só a expectativa já valeu a pena.
Bem, fiz uma lista de 30 coisas para serem feitas antes dos meus 30 anos. Meu tempo está se esgotando e completei apenas metade. Comecei a construir essa lista há muito tempo. Não foi feita nessa configuração, mas algumas vontades me acompanham há tempos, e os 30 me pareceram um bom limite superior de procrastinação.
Reli a lista hoje, 9 dias antes do meu prazo final. Senti vontade de retirar dali alguns itens, pois já não acredito que a vontade tenha sido tão genuína como pensei que fosse no momento em que escrevi. Algumas vontades escondiam sentimentos obscuros e em transição. Nada como se encontrar consigo mesma para entender que “Opa, isso aqui não é meu não”. Dos 16 itens faltantes, incluo 5 nessa categoria.

Outras vontades ainda persistem e continuarão persistindo, porque essas, sim, de fato me pertencem. E a partir delas, descobri novas e reacendi antigas paixões, como a corrida e outras que não ouso registrar aqui por cautela. Na função de cumprir os itens da lista, retomei minha adolescência e revivi histórias de amor inacabadas que me trouxeram suavidade e um certo conforto com isso que traduzimos como ‘tempo’. E no meio disso tudo, me reencontrei com a Marcela de 11 anos, que via beleza em N coisas que todo mundo ao seu redor achava incomum ou estranho. E ela resolvia tudo com uma frase genial que nunca deveria ter sido esquecida: “Eu gosto do que eu gosto”. Me vi conversando carinhosamente com essa menina, aconselhei que ela não tivesse medo da vida. Talvez em outro universo paralelo ela tenha me escutado.
Ainda me faltam 11 itens da lista e, poxa, é cada coisa. Ah! Essas coisas… Penso que nunca aprenderei a fazer. Veja, o item 5 é “ aprender a falar ‘não’ sem sentir remorso”. Curioso isso. Muitos “nãos” foram ditos nos últimos tempos, a maioria deles sem remorso — grande vitória! Aplausos! A exceção é dizer ‘não’ para quem a gente ama, sabendo que isso vai machucar, ainda que implique em algo necessário. Mas, curioso é que não aprendi a dizer ‘não’ sempre que foi preciso. Talvez por uma certa rigidez e apego à literalidade do enunciado, que nada diz sobre dizer ‘não’ em defesa dos meus desejos e as minhas vontades. Repare que existe aí uma diferença importante. Não consigo ser totalmente fiel a mim mesma a ponto de dizer assertivamente que “não quero ficar aqui”, “não quero te ver agora”, “não vou fazer isso sozinha” e o contrário, “quero fazer isso sozinha”. Que contraproducente, não? Parece simples e pouco importante, mas esse don´t know how me tirou muito nos últimos tempos. Essa anulação de superego, esse despir-se da função de realizar a expectativa alheia é o que mais nos aproxima do que nos é genuíno. Às vezes, é necessário. E, só assim, as pessoas tem a oportunidade de nos conhecer de verdade. Conhece outra forma? Seremos julgadas de qualquer jeito. Mas é terrível ser julgada por quem você não é, pelas escolhas que você se absteve de fazer. Quando foi que aprendi a me anular diante das pessoas? Eu, hein! Que coisa!

Em contrapartida, minha sobrinha fez 3 anos. Semana passada ela não quis conversar comigo no telefone porque a minha presença “virtual” não lhe interessa. “Você não está aqui. Quando você vier aqui a gente conversa e brinca. ” Ainda, nos mesmos dias, ouviu uma frase pejorativa sobre uma terceira pessoa que ela nem conhece e disse “Que feio falar assim dos outros”. Outras tantas vezes, oferecemos ajuda e ela disse “Não preciso de você agora”. Ela se olha no espelho fantasiada de joaninha e diz “Estou pronta para ir ao supermercado”. Proporcionalmente, pensei que fazer 30 fosse como fazer 3. Ir ao supermercado vestida de joaninha não deveria parecer mais tão assustador. Decidir se você quer ou não seguir um caminho, deixar uma pessoa, ainda que você goste dela, não deveria ser tão melindroso. Expor sua opinião, ainda mais quando pautada em valores importantes para você, não deveria ser constrangedor em nenhuma situação. Pensei que os 30 me daria esse direito e sobretudo essa coragem. É certo que a Marcela de 11 anos, e por que não a de 3, teria muita coisa proveitosa para me ensinar sobre meus 30 anos. E pensar nisso talvez essa seja umas das grandes vivências as quais tenho me dado a chance de viver.
Ainda me faltam cerca de 8 itens.
Mas, eis aqui um impasse matemático…
Alguns itens que eu havia dado como feito, reconsiderei. Conclui que não estão prontos, nunca estarão. A vida é cheia de processos inacabados, né? Veja, como você pode querer aprender algo que não se prende? Pode no máximo conhecer, com uma ou duas vivências experienciadas, um pouquinho do que é aquilo que você busca da vida, e isso não pode ser um todo, nunca vai estar completo. Existem coisas grandes demais para se concluírem (ainda mais com um check de esferográfica numa folha de papel). Não dá.
