é madrugada. fazem algumas horas que fui deitar e algumas menos que você deve ter se deitado.

será mais uma noite com algumas horas a menos de sono. você aparece pra conversar a noite, ainda entre um afazer e outro, o sono vai embora e mostra todo o espaço da falta que faz conversar contigo e da vontade que me toma de jogar conversa fora, saber algo dos seus dias da última semana, dizer mais tantas vezes do tamanho do meu amor e ouvir você me chamar só como você me chama.

horas a menos porque uma imensidão vermelha chegou. intensa como é sonhar com nossos momentos, lembrar de detalhes e acordar agora, quando ainda é noite, com a sensação de que você estava ainda há pouco aqui do meu lado. imensidão cor de sangue que pulsa por nós. às vezes cheia de desejo, necessidade de pertencer, de se entregar, de receber de volta e de retribuir de novo. outras vezes igualmente plena, mas plena da calma e da certeza da nossa cumplicidade. imensidão que me arranjou lençóis para lavar logo de manhã e lembranças detalhadas dos, por hora, nossos últimos momentos.

horas a mais em que posso ver aqui na minha frente, em detalhes, os desenhos da sua calça, dos sinais no teu corpo e do amor amarrotado por nós. consigo sentir o gosto do bolo que você queria tanto comer, sentir sua mão apertando a minha diante do encanto de se deparar feito criança com outra imensidão (a que se insinua em milímetros se olho pela janela), sentir minha falta de jeito pra dançar em par contigo ou os arrepios de mais cedo causados por uma frase ao pé do ouvido.

os ipês em flor. as músicas que vira e mexe acordo ouvindo. poeira em nós. poeira que nos levou ao banho e, então, à entrega. andar de mãos dadas por onde formos. ganhar uns olhares atravessados e uns sorrisos cúmplices, ambos interessados no nosso amor. felicidade expressa nos seus olhos sorrindo, no seu corpo dançando, nos nossos beijos — tão nossos e dessa nossa realidade que um dia já foi paralela e que hoje, gosto de pensar, fazemos cada vez mais presente.

lembro de ir dormir ao seu lado. tomar café num dia atipicamente ensolarado. fazermos nossas vidas e nos encontrarmos mais uma vez a noite. lembro de desistirmos de uma festa para passarmos a noite entregues. dormir mais uma noite do jeito que dormiria todas as noites dessa vida. ser incapaz de te acordar e, então, ficar ali admirando um sono que parecia tão bom.

lembro de pensar de como gostaria que você se entregasse um pouco mais e dos sonhos de uma noite passada. projeções de algo ainda não realizado. lembro da chateação por não poder estar sempre perto e já não poder conversar todos os dias. de querer mais trocas. e da gratidão enorme por, apesar dos nossos tropeços, conhecer um amor infinito.

sei que não gosta de despedidas e conseguir lembrar assim, com cada sentido e no meio da madrugada, talvez seja nosso jeito de não nos despedirmos.

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