A “rivalidade feminina” e as possibilidades de nos fazermos feministas

We all knew firsthand that we had been socialized as females by patriarchal thinking to see ourselves as inferior to men, to see ourselves as always and only in competition with one another for patriarchal approval, to look upon each other with jealousy, fear, and hatred. Sexist thinking made us judge each other without compassion and punish one another harshly. Feminist thinking helped us unlearn female self-hatred. It enabled us to break free of the hold patriarchal thinking had on our consciousness.
[Nós todas sabíamos em primeira mão que tínhamos sido socializadas como fêmeas pelo pensamento patriarcal para nos vermos como inferiores aos homens, para nos vermos sempre e somente em competição umas com as outras pela aprovação patriarcal, para olhar sobre as outras com inveja, medo e ódio. O pensamento sexista nos fez julgar umas às outras sem compaixão e nos punirmos duramente. O pensamento feminista nos ajudou a desaprender do autodesprezo feminino. Permitiu que nos libertássemos do poder que pensamento patriarcal tinha na nossa consciência.]
HOOKS, bell. Feminism is for everybody: passionate politics. p.14

Mulher se arruma para mulher”, “Mulheres são todas fofoqueiras”, “Mulher solteira não pode ver namorado da amiga sozinho que já vai lá…”. Recalcadas. Competidoras. Inimigas. Desde muito novas somos encorajadas a disputar umas com as outras. Para ser mais bonita do que a outra, para ser mais comportada do que a outra, para ser melhor do que a outra, para ser diferente da outra. Aprendemos que “não dá pra confiar em mulher”.

Quantas mulheres você conhece que já disseram que não gostam de trabalhar com outras mulheres? Quantas mulheres vocês já viram desqualificando outras pelo comportamento sexual ou pela roupa que usavam? Quantas vezes você já viu uma mulher dizer que a outra era recalcada e mal amada? Quantas vezes você já fez isso? É assim somos ensinadas, é esse senso comum, que chamamos patriarcado, essa estrutura sexista em que todas as pessoas vivemos imersas.

As rivalidades são mecanismos capazes, a um só tempo, de união e de desagregação; nascem com e da marginalização. Nas nossas sociedades machistas, é evidente que rivalidades entre mulheres têm objetivo estratégico: enquanto vivemos competindo estamos incapazes de nos unirmos em nossas semelhanças, de empatizarmos em nossas diferenças interseccionadas e de, juntas, construirmos equidade.

Sociologicamente, a agressiva competição entre as mulheres dá-se principalmente com o fato de que, nascidas e criadas numa sociedade dominada pelos homens, internalizamos a perspectiva masculina e a tomamos como nossa. O “olhar masculino” sobre as mulheres como objetos torna-se, assim, quase que profecia que se cumpre em si mesma. Quanto mais consideramos a validação masculina (ou a validação sob os valores tidos como masculinos) como a única fonte de força, valor e identidade, mais somos levadas a batalhar umas com as outras pelo “prêmio”.

De certa forma, nos encontramos rodeadas por uma falsa consciência. Fomos convencidas de que o “inimigo” é outra mulher e não entendemos que devemos combater a estrutura patriarcal e machista que socialmente nos submete e nos coloca como objetos sem valor intrínseco. Deixamos de entender que a verdadeira ameaça às nossas conquistas não são as outras mulheres, mas a superestrutura patriarcal capitalista, colonizadora de corpos e ações.

Imagine quanta coisa pode ser diferente se, ao invés de cerrarmos os punhos, estendermos as mãos. Se no lugar da ambição colocada em nós de sermos diferentes das outras mulheres, possamos nos reconher nas nossas semelhanças e nos apoiar em nossas diferenças. Se trocarmos o cenário de competição constante, de inveja que nos consome e de falta de conexão que nos isola por um de confiança e amor mútuos. Amarmos a nós mesmas é perigoso para o patriarcado; amarmos a nós e umas às outras, ainda mais. Perigoso porque assim estamos nos tirando do lugar do segundo sexo e nos afirmando enquanto agentes de uma transformação. Perigoso porque assim podemos causar pequenas revoluções diárias.

Somos criadas em uma cultura sexista patriarcal e contestar o status quo não é fácil. Transpor essa competição é algo capaz de exaltar ânimos. Vão querer nos ridicularizar, calar, fazer voltar para “onde deveríamos estar”. A “rivalidade feminina” é uma forma sofisticada de agressão justificada pela evolução biológica que, com lições diárias de empatia, podemos derrubar.

Mulheres unidas protagonizaram importantes transformações nas sociedades ao redor do mundo. Mulheres unidas têm protagonizado revoluções diárias e cada vez mais visíveis. Em coletivos feministas; em conversas com as mulheres do seu convívio diário; em suas profissões ; em projetos e grupos surgidos nas redes sociais; nos grandes centros urbanos e nos lugares mais escondidos e esquecidos; nas mais diversas pautas e demandas, nos apoiamos e nos fazemos feministas, mesmo ainda que não nos tenhamos colocado “rótulo”.

Como bell hooks afirma em Feminism is for everybody, feministas não nascem, nós nos construímos. Essa construção, às vezes lenta, acontece na vida de cada mulher em momentos diferentes. Precisamos, considerando todas as nossas especificidades e intersecções e não deixando opressões passarem, sermos capazes de olhar para nós todas e ver que, mesmo com tantas diferenças, há algo profundo que nos conecta. Pode ser que andemos bem sozinhas, mas juntas andamos e andaremos melhor.

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