Trabalhar com as palavras. Ser escritora, revisora, tradutora, jornalista, editora, livreira, cronista ou poeta. Taí algo que é difícil pela insegurança; um pouco difícil porque quase sempre supomos que para nos dizermos escritoras, precisamos ser grandes, publicadas, famosas; ainda mais difícil em um mundo que confunde sucesso e felicidade com dinheiro — o mesmo mundo em que assinar como mulher já é sinônimo de menos credibilidade, menos confiança vinda de quem vai nos editar e publicar, menos confiança vinda de nós mesmas.

Na lógica capitalista em que vivemos, um trabalho é algo que se faz em troca de dinheiro. Na lógica sexista em que estamos, a competência de uma mulher é constantemente questionada, questionamentos muitas vezes baseados em nada mais que pré-conceitos.

Por que, então, continuo e insisto em escrever? Por que continuamos sendo esses, como disse a olivia maia aqui, bichos estranhos que trabalham primeiro, e depois torcem para, talvez, serem remunerados?

Tive um professor, que trabalha como editor literário, que uma vez disse que a literatura tem um componente de doença, porque mostra uma incompatibilidade do autor pelo que é estabelecido em nosso mundo. Só sendo meio desajustado mesmo pra fazer isso da vida.
Por isso acho que quem procura a vida de escritor atrás de dinheiro ou fama tem grandes chances de estatelar a cara no chão. Porque quem está nessa até tentaria trabalhar com outra coisa, se fosse possível, se não fosse essa profunda obsessão em escrever para conseguir suportar a realidade. É como eu disse aqui: escrever é o que me possibilita atravessar o mundo sem me afogar.
Não é impossível ganhar dinheiro escrevendo, mas viver disso, ou pior, ganhar muito dinheiro com isso, é a exceção da regra; pouca gente consegue. Se a pessoa está pensando em uma carreira em que possa ganhar dinheiro de forma estável, mais ou menos confortável, com garantias e remuneração proporcionais ao seu esforço, melhor procurar outra carreira.
Meu conselho para quem pensa na literatura como profissão é: se puder não escrever, não escreva. Pode parecer meio pessimista, mas o que quero dizer com isso é que, se você for teimosa o suficiente para continuar escrevendo enquanto você pode simplesmente não escrever, então você já terá feito o mais difícil.

Aline Valek em entrevista para a revista Capitolina

Como disse o professor da Aline, muitas pessoas escrevem porque se sentem e se colocam como incompatíveis com esse mundo que nos cerca. Algumas resolvem que esse será seu jeito de duplipensar; outras, que sendo mais de uma pessoa é mais fácil ser si mesma; outras, acreditando no poder das palavras, as escolhem para serem suas ferramentas de transformação — se não do mundo, ao menos de quem ler e for tocada por essa leitura. Quem sabe assim não formamos nossas células revolucionárias?

[Quer mais fontes e mais pensamentos sobre? Vai lá na newsletter das Mulheres que Escrevem, tem texto da Taís Bravo ☺]


Em uma compreensão politicamente ativista, sociologicamente inscrita em uma História e em histórias de colonização de corpos e compreensões, escrever é afirmar existência ativa. É cada pessoa socialmente construída como inferior se apropriar de instrumentos que inicialmente lhes negam. Ter voz e poder infiltrar em espaços, ainda que muitas vezes estando cercadas de olhares tortos. Expor as formas marginalizadas de existir e propor diálogos transformadores.

Glória Anzaldúa — acadêmica, ativista política, lésbica, feminista, escritora e poeta chicana (mexicana-estadunidense) — diz muito sobre isso em Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo. Descreve o escrever difícil e necessário: aquele que nos faz confrontar partes de nós que nem nós conhecemos e viver para contá-las. A escrita que revela a força de uma mulher sob uma opressão tripla ou quádrupla por seu gênero, sua cor, suas afetividades, sua classe, sua existência e resistência. Um trabalhar com palavras que provavelmente não lhe renderá grandes compensações financeiras e facilmente gerará discursos inflamados e negativos, talvez seja este o mais compensador.

Por que sou levada a escrever? Porque a escrita me salva da complacência que me amedronta. Porque não tenho escolha. Porque devo manter vivo o espírito de minha revolta e a mim mesma também. Porque o mundo que crio na escrita compensa o que o mundo real não me dá. No escrever coloco ordem no mundo, coloco nele uma alça para poder segurá-lo. Escrevo porque a vida não aplaca meus apetites e minha fome. Escrevo para registrar o que os outros apagam quando falo, para reescrever as histórias mal escritas sobre mim, sobre você. Para me tornar mais íntima comigo mesma e consigo. Para me descobrir, preservar-me, construir-me, alcançar autonomia. Para desfazer os mitos de que sou uma profetisa louca ou uma pobre alma sofredora. Para me convencer de que tenho valor e que o que tenho para dizer não é um monte de merda. Para mostrar que eu posso e que eu escreverei, sem me importar com as advertências contrárias. Escreverei sobre o não dito, sem me importar com o suspiro de ultraje do censor e da audiência. Finalmente, escrevo porque tenho medo de escrever, mas tenho um medo maior de não escrever.

Grada Kilomba, escritora portuguesa de origens em São Tomé e Príncipe e Angola, performer e professora da Universidade Humboldt de Berlim, vê nas palavras a potência de descolonizar o conhecimento, criar novas configurações de conhecimento e de poder. Para ela, narrar posições e subjetividade como parte do discurso é relembrar que a teoria não é universal nem neutra, mas sempre localizada em algum lugar e sempre escrita por alguém, e um alguém tem uma história. Em “While I write” [Enquanto eu escrevo], Grada também se questiona — ou reflete o questionamento constante — “Por que escrevo?”.

Escrevo, quase como uma obrigação, para me encontrar. Enquanto escrevo, não sou o “Outro”, mas o self; não o objeto, mas o sujeito.(…)Eu me torno a absoluta oposição do que o projeto colonial pré-determinou. Eu me torno eu.

Escrever é a possibilidade de fazer novas narrativas ou fazer ver as narrativas subalternizadas. Ser escritora pode ser trabalho de bicho esquisito que “gosta” de sofrer para fechar as contas no fim do mês, mas, com certeza, é também ser quem se é e acreditar na potência revolucionária.

“Choque você mesma com novas formas de perceber o mundo, choque seus leitores da mesma maneira. Acabe com os ruídos dentro da cabeça deles.” Glória Anzaldúa