Mulher fala pelos cotovelos?

Das frases feitas e lugares comuns do que é ser mulher: “Mulheres falam de mais, vivem por aí fofocando.” Fora toda a carga machista impregnada nesse tipo de afirmação, será mesmo que é assim?

Lendo a newsletter da Ana Haddad dessa semana, descobri essa pesquisa que analisa diálogos de mais de 2 mil filmes segundo gênero. De 30 filmes da Disney, em 22 predominam discursos masculinos, inclusive filmes que tem fortes mulheres protagonistas. Em Mulan, Mushu tem 50% mais palavras que a própria heroína. É assim que somos ensinadas a ser desde muito novas.

Entre 2 mil filmes, apenas nove tem mais de 90% dos diálogos acontecendo entre mulheres, enquanto em 307 os diálogos masculinos compõem essa porcentagem. Conforme as personagens envelhecem, mais falas para os homens e ainda menos para as mulheres.

Falando aqui somente apenas de um dos meios que refletem e moldam a sociedade: os filmes de Hollywood, já nos fica muito evidente que, estereótipos a parte, as mulheres não falam pelos cotovelos. Pelo contrário, aprendemos que para passarmos pelos lugares devemos passar despercebidas e, de preferência, com um ar de feminilidade frágil que seja capaz de encantar quem, por acaso, em um descuido, nos perceber.

Se ficamos e nos atrevemos a falar, podemos estar preparadas: vem aí manterruption, ohábito” masculino de interromper enquanto as mulheres estão falando a fim de assumir o controle de uma conversa, redirecioná-la, afirmar conhecimento superior e geralmente causar incômodo. Acontece em reuniões de trabalho, em apresentações científicas, na mesa de jantar e no quarto.

Quando meu irmão quer realmente me irritar, ele levanta o dedo e não exista “Shhh. Homens falando”. Nem sempre é tão claro, mas está no cotidiano. Cada vez que uma mulher tenta explicar algo e é automaticamente interrompida por um homem, ainda que ela saiba mais sobre o assunto. Outro dia aconteceu entre eu, meu pai e meu irmão em uma conversa no carro sobre política brasileira. Assembleias são outro espaço ótimo para observar esse fenômeno. Se você já esteve em alguma, pode perceber: são poucas as mulheres que conseguem um espaço, raras as que tem seu discurso verdadeiramente levado em consideração e todas elas são unânimes, para chegar ali é preciso ser forte, levantar a voz e torcer para que não te chamem “louca”.

Manterruption não é apenas sobre um senso inflado de auto-importância do sexo masculino cultivada pelo sexismo. É também sobre uma tendência social maior, também cultivada por sexismo: a ideia estruturalmente generalizada de que as mulheres não importam e que suas vozes são irrelevantes. É sobre política de gênero e como conversação é sempre um campo de batalha no qual mulheres, e as outras pessoas desviantes do tipo ideal de cidadão dotado de voz relevante, tem que lutar por cada centímetro.

Em um estudo realizado na Universidade George Washington, notou-se. ao analisar as conversas entre mulheres e homens, que elas, em geral, tendem a ser interrompidas mais do que eles, o que não é exatamente a descoberta do século, mas contribui para autenticar o que o cotidiano feminino conhece há muito tempo. E ainda, o sexo da pessoa que faz a interrupção não importa o quanto você poderia pensar: enquanto mulheres são menos propensas a interromper, quando o fazem, é mais provável que interrompam outras mulheres. O patriarcado é eficiente, introjetamos nós mesmas que nossos discursos são aqueles que podem ser interrompidos.

Sobre nossas vozes no cenário político, então, o que dizer? Acho que hoje opto por um convite. Que tal sermos como a Erundina?