“Se cuida”: militâncias e autocuidado

Somos mulheres e o cuidado (dos outros) perpassa nossa realidade desde muito cedo. Na distribuição dos trabalhos na sociedade ocidental moderna nos foi delegado o cuidado.

Cuidar do nosso exterior ao redor. Cuidar da casa, dos parentes, dos patrões e suas famílias. Cuidar do seu corpo, mas para mantê-lo nos padrões, claro. Cuidar dos outros, mas esquecendo do cuidado subjetivo — o sistema faz questão de estabelecer.

E isso também está reproduzido na militância.

Denunciamos que a exploração baseada em gênero, raça e classe determina todos os aspectos de nossa vida. Reconhecemos a opressão aos corpos e ideologias nas suas variadas expressões. Mas muitas vezes fazemos isso como algo que acontece externamente. Imagina se opressões acontecem dentro dos espaços militantes? Claro que não! [insira muita ironia aqui]

Porque a dificuldade em reconhecer isso e buscar uma outra ética de relações dentro desses espaços?

Outras tantas vezes, lutamos contra opressões acreditando que não nos atingirá — ou, se atingir, é parte da tarefa militante se sacrificar pela causa.

Por que há tanta dificuldade em reconhecer a subjetividade da dor na militância? Em reconhecer que somos os meios de mudança e faz pouco ou nenhum sentido sacrificar-nos?

Faz tempo que se diz que o pessoal é político. Precisamos entender que isso vai além da afirmação potente de que as relações pessoais são políticas. É também a reivindicação de que relações políticas precisam considerar as dimensões dos sentimentos, da emoção, da vivência subjetiva das pessoas.

Militar requer sacrifício, mas este sacrifício deve ser sempre avaliado em relação ao que aquela pessoa pode suportar. Um grande número de pessoas ao meu redor se encontra afastado da luta diária por conta do que essa estrutura de infelicidades que reproduzimos é capaz de fazer. Militar pode sim quebrar uma pessoa.

Não adianta fazer ciranda, repetir mantras de uma revolução com amor e não praticá-los. Não devemos negar o cuidado. Não há como viver sem cuidado. Não há porque viver sem cuidado.

E não achemos que o cuidado é egoísmo ou luxo pequeno burguês. Na práxis militante vamos, aos poucos, entendendo como o mundo funciona. E ele funciona abominavelmente. Nossos adversários na luta social estão todos muito bem cuidados — pelas mulheres que eles pagam para isso, pela ordem que eles escrevem e regem, pelos privilégios que detém.

Como já afirmava Audre Lorde, vivemos em sistemas de poder que são projetados para nos fazer infelizes, estrategicamente projetados para excluir a felicidade e bem-estar de determinados grupos de pessoas. Então a felicidade das mulheres e de militantes numa sociedade patriarcal que busca a todo modo se manter é em si um ato político.

Militar é uma tarefa de resistência e para resistir é preciso força. Para termos força é preciso cuidado. O cuidado nos fortalece para a luta. O cuidado faz parte da luta. Cuidemos de nós e nos cuidemos coletivamente.

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