Casas com Alma #1

Este é o primeiro texto de uma série onde falarei um pouquinho sobre meu conceito de casa com alma.

Casa com Alma, prá mim, é aquela que comunica a personalidade do dono. É a casa que pode até incorporar modismos, mas, em essência, é atemporal. Feita para ser degustada. Carrega lembranças, memórias de família, regionalismos, crenças, e algo essencial para mim: autenticidade.

Dia destes, entrei pela primeira vez na casa de uma amiga que conheci há pouco mais de um ano. E o que vi ali foi encantador… Pedi a ela que me mandasse algumas fotos da sala sem se preocupar com produção. Queria mostrar a casa em uso, e vou bater nesta tecla sempre: ambiente produzido fica lindo em revista, mas, na vida real, a coisa é outra. E a gente precisa falar mais sobre vida real.

Vou contar um pouquinho sobre a história do casal: Júlia é professora, mediadora e advogada. Zé Guilherme é músico e professor. Vieram de Recife prá São Paulo por motivos pessoais.

Pedi à Júlia que me contasse um pouquinho sobre a história da casa:

“A casa não foi ´pensada´ em nada. A gente foi botando as coisas da forma mais intuitiva possível (até porque o processo de mudança pra cá foi super corrido). Eu gosto de cores, ele também. Quando vim morar em SP, foi uma decisão MUITO difícil deixar o nordeste. Eu era o nordeste, não era muito ´eu´. Então, lembro que fui em dois lugares que amo muito em Recife - o Mercado de São José e a Casa da Cultura (referências na venda de artesanatos da região) e comprei umas coisinhas que o dinheiro (apertado, de uma recém formada desempregada) dava. Aí, quando me mudei pra SP, quis ter um pedacinho da minha referência nas minhas paredes, nas minhas coisas… Então, vieram, por exemplo, descanso para copos, quadrinhos com referência ao carnaval, ao bumba-meu-boi, à ciranda, à pesca… Toalha de mesa rendada e etc.

Outra coisa marcante é que o Zé é filho e irmão de artistas plásticos. Temos alguns quadros deles nas paredes espalhados pela casa e muitos a serem emoldurados um dia… Tem um quadro pintado pelo irmão de Zé que é baseado numa colagem com uma foto de Julhinha (filha do Zé, que também tem seu espaço na casa).

Existem ainda lembranças de uma viagem ou outra, mas coisa bem simples mesmo, do tipo: fui numa praia e fui muito feliz ali, daí apareceu um cara pintando uma cerâmica com um palito de dente e veio nos oferecer. Pirei naquilo, ajudei o cara e voltei com a cerâmica pra casa.”

Perguntei a ela como é a relação dela com este espaço hoje:

“Minha casa tem que ser meu refúgio de paz. Tem que me acolher e ser aconchegante. Eu trabalho em casa, então é um lugar misturado ao mesmo tempo. Eu trabalhava muito numa escrivaninha no quarto, mas há mais de um ano não tenho conseguido trabalhar no quarto. Uso a sala, fico na poltrona e invento um escritório diariamente.”

Livros próximos a uma rede gostosa, que recebe luz natural. As bandeiras na janela são um símbolo do budismo tibetano.
A parede azul turquesa está recheada de referências deliciosas de se desvendar (eu mesma gastei uns bons minutos admirando cada uma).
A vegetação enriquece muito a decoração. Mas só serve prá quem curte cuidar das plantinhas, né?
Neste aparador, o casal reúne referências de diferentes religiões. É como um altar pessoal. (Perceba como é fácil dizer que aqui mora uma família brasileira.)

Eu fico muito feliz quando entro numa casa como esta. Me alegro em desvendar cada cantinho, saber da história por trás de cada objeto / cor / disposição…

Mas, sei que não é tarefa simples. É muito comum as pessoas ficarem inseguras na hora de decorar a casa.

Sempre comparo a decoração à moda. Se você prestar atenção, verá que há muitas semelhanças, inclusive nas tendências.

Para algumas pessoas, vestir-se é algo muito natural. Rola sem medo, de modo experimental. Para outras, é sofrido. Surgem muitas dúvidas. E sinto que há sempre muito a aprender, além de mudanças se fazerem necessárias a cada momento da vida.

Querendo ou não, mesmo que sem abrir a boca, estamos constantemente nos comunicando com o mundo. Vale para nossos gestos, postura, entonação da voz, modo de se vestir, modo de olhar… Na decoração de um espaço, não é diferente.

Acredito que tudo faça parte de um processo de autoconhecimento, de vivências, de relaxamento… Exercício prá fazer a vida toda, sem pressa, lembrando de manter espaço para novidades e mudanças.

Espero ter inspirado um pouquinho cada pessoa que tiver lido este texto. ;)