Somos colecionadores.

Me vi sem direção, e cada palavra que arriscava sair para fora, rasgava minha garganta. Por hora procurei refúgio em qualquer outro espaço para além de cinco metros quadrados, para além de toda a existência humana, maçante e rígida. A água pingava da biqueira, uns pingos falhados e enfraquecidos, e o céu se desbotava por entre o horizonte, era a minha esperança mais próxima, vê da janela um céu como um quadro, como um sonho e distante.

Fale alguma coisa, vamos fale comigo Ana.

Uma voz trêmula e balbuciada quebrou o silêncio e me trouxe de volta a realidade. E tudo estava lá, do mesmo jeito. O jazz ainda tocava baixo, fundido ao som do ventilador, e o cinzeiro ainda estava nas minhas mãos. A foto ainda se escancarava a minha vista. E ele tentava dizer que só tinha se esquecido de se desfazer daquela lembrança, e que ela já não significara nada. E eu temia que ainda significasse algo, que lhe causasse mais alguns pensamentos, o passado já não podia mais caber em lugar nenhum aquela altura do campeonato, e se coubesse, eu não podia aceitar.

Era tudo resistência, coisa de quem tem medo de amar. De não aceitar que ninguém vem vazio, que todo mundo trás consigo umas memórias teimosas. E que por hora era só repousar as lembranças antigas, e dar-lhe mais umas para próxima caminhada. Faz parte do nosso ciclo, sermos moldados ao longo do caminho. Todo mundo trás consigo bagagens, fotografias, umas páginas e letras e depois de você, continua o mesmo trajeto, cata mais uns caquinhos, e ai segue em frente. Porque a gente tem essa mania de sempre se mudar. As vezes até parece que a gente só vive pra colecionar.

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