“Olhe para mim, eu estou no céu”: o mundo literário de David Bowie

Publicado no Homo Literatus (18/2/2016)

De Kerouac a Orwell: como o artista David Bowie, que faleceu em janeiro de 2016, entrou no mundo da literatura e utilizou técnicas surrealistas para composição de letras e músicas

Quando uma pessoa nos deixa, surge um sentimento de vazio e impotência. Ainda mais quando essa pessoa é alguém sempre presente — não fisicamente, mas artisticamente –, um ídolo e herói que nos surpreendeu mesmo após sua morte. Fato que acaba conferindo um certo aspecto místico e endeusado à pessoa em questão. David Bowie ganhou a comoção e homenagem de fãs do mundo todo após o seu falecimento em janeiro de 2016, poucos dias depois do aniversário de 69 anos e do lançamento do álbum surpreendente (e agora, tão doloroso e sombrio) Blackstar. Aquele que pensamos ser “para sempre” deixou-nos em um estado de luto, como se perdêssemos um amigo íntimo. Surge o baque quando nos confrontamos que um dos nossos ídolos pode morrer: a consciência da fragilidade do ser humano pode ser aterradora.

A carreira de Bowie foi uma grande peça musical, em que assistimos ao espetáculo teatral de grandes personagens — como o assexuado e alienígena Ziggy Stardust. Todos foram facetas da imaginação de David Jones, personagens construídos, desconstruídos e reconstruídos por ele mesmo. Não havia delimitação de gênero, raça, estilo ou realidade. A palavra “fragmentação”, que marcou a década de 70 — o auge de seu experimentalismo do artista –, caracterizou Bowie, um eterno camaleão, que mudava de personagens conforme lhe convinha. Um tempo de imobilidade, declínio, conflito e decadência, em que as esperanças fortemente cultuadas na década anterior se dissiparam. Uma época em que as pessoas estavam desesperadas por um sentido, um significado. Bowie tomou esta necessidade justamente para fornecê-lo. Os anos 70 determinaram o auge do individualismo, foi a chamada “Década do Eu” por Tom Wolfe ou “A Cultura do Narcisismo” por Christopher Lasch, como afirma o autor Peter Doggett em O homem que vendeu o mundo: David Bowie e os anos 70 (2014):

Bowie foi um dos primeiros comentaristas da cultura pop a denunciar que o otimismo que cativara a juventude ocidental em meados da década de 70 era vazio e ilusório. A negatividade de Bowie parecia anacrônica, mas ela tão somente poderia alimentar e satisfazer o otimismo da cultura jovem dos anos 60. (DOGGETT, p. 9)

David Jones nasceu em Brixton, no sul de Londres, em 1947. Foi criado em um ambiente de instabilidade, frustração e repressão emocional. Sua família não era a do tipo convencional: seus pais tinham, ao todo, quatro filhos, mas depois de 1953, Bowie nunca mais morou com os meio-irmãos mais velhos, salvo por breves períodos. Cresceu bastante solitário em seu quarto nos fundos da casa, absorvendo ideias e imagens de livros, revistas e discos:

Eu queria ser um artista fantástico, ver as cores, ouvir a música, mas tudo o que eles queriam era me pôr para baixo. Eu cresci me sentindo desestimulado e pensando: ‘Eles vão me derrotar’. Eu tinha que fugir para o meu quarto. Por isso você entra no quarto e carrega aquele bendito quarto com você pelo resto da vida. (David Bowie, p. 28)

Em meio a tudo isso, encontrou a arte. Em meio à arte, os livros. Uma grande influência para a entrada no mundo literário foi o seu meio-irmão, Terry, que também foi o responsável por lhe apresentar o jazz e as casas noturnas do Soho. Ironicamente, Terry sofria de problemas psicológicos, como grande parte da família por parte de mãe de David, e seus problemas de saúde mental foram se agravando com o passar dos anos. Segundo Bowie, Terry gostava dos escritores Beat — Jack Kerouac, Allen Ginsberg, Gregory Corso, Lawrence Ferlinghetti, William Burroughs e John Clellon Holmes — e chegava em casa com os livros de bolso enfiados no paletó. “Ele curtia tudo, e lia as obras dos primeiros autores que escreviam sob efeito de drogas, curtia budismo, poesia, rock e jazz, especialmente os saxofonistas John Coltrane e Eric Dolphy […] A mente dele era aberta pra tudo […] Era rebelde à sua maneira […].” (DOGGETT, p. 34)

Em 1960, Bowie foi admitido numa escola experimental que o incentivou a se interessar mais em Kerouac e Coltrane. Em 1961, já tinha sido exposto às influências literárias mais simbólicas da época, de Baudelaire a Orwell, de Sartre a Colin Wilson. Numa entrevista concedida ao jornalista Timothy White, no final de 1977, Bowie afirmou que sentiu-se desconfortável durante a leitura de A Metamorfose (1915), de Franz Kafka, que trata de transformações psicológicas e físicas de um ser humano para uma criatura bestial, tendo em vista as mudanças do próprio irmão.

Um dos livros que Terry deu a Bowie e que, segundo o próprio artista, exerceu grande influência na construção de seu “eu adolescente” foi o Na Estrada (1957), de Jack Kerouac. Ambientado no ano de nascimento de Bowie, o livro traz ideias de liberdade, mudanças, expansão de fronteiras, confronto à imobilidade — seja por meio de viagens, drogas, sexo ou música. “Para mim, só os loucos importam, os que têm loucura por viver, loucura por conversar, loucura por escapar, os que queriam tudo ao mesmo tempo, os que nunca bocejam ou falam banalidades, os que ardem, ardem, ardem, como fantásticos fogos de artifício que explodem como aranhas em meio às estrela”, diz um trecho da obra. Bowie leu esse livro aos 15 anos, o que o fez desejar sair de Bromley, subúrbio do sul de Londres onde vivia com sua família desde 1953.

Bowie, Burroughs e a criação surrealista

Em 1974, quando Bowie tinha 26 anos, a revista Rolling Stone publicou um diálogo entre ele e Burroughs — reunião que aconteceu em novembro de 1973, promovido pelo jornalista A. Craig Copetas. O encontro (divertidíssimo, vale ler na íntegra), foi frutífero: realçou a fama e credibilidade do escritor e orientou a trajetória de Bowie nos anos seguintes. O músico tomou para si a técnica de criação surrealista cut-up de Burroughs, desenvolvida em parceria com o pintor Brion Gysin, que usava o recorte como método de remontagem visual e verbal, ação também aplicável à pintura, à ilustração, à caligrafia, à manipulação de fitas gravadas e à palavra. Consistia em extrair trechos de jornais ou textos afins e reorganizar frases ou palavras, com o objetivo de conferir-lhes novos significados. Como disse Burroughs no ensaio O método de recorte de Brion Gysin, apontando na obra David Bowie (2014):

os recortes estão ao alcance de todos. Qualquer pessoa pode fazer recortes. É uma técnica experimental no sentido de que é algo a ser feito. Aqui e agora […] Recortar e redispor uma página de palavras introduz na escrita uma nova dimensão, possibilitando ao escritor transformar imagens em variações cinemáticas. Com a tesoura, as imagens mudam de sentido, de imagens olfativas para visão sonora, para som sonoro, para sinestesia. (p. 100)

Bowie usou o novo método para escrever letras e compor músicas por décadas, criando um software para isso, o “Verbasizer”, como mostra o vídeo abaixo, em um trecho do documentário Inspirations (1997), dirigido por Michael Apted. David escrevia em primeira e terceira pessoa, por exemplo, então misturava as duas perspectivas para criar uma nova. Os resultados aparecem em Low, Heroes e Lodger, álbuns também conhecidos como a Trilogia de Berlim, produzidos entre 1977 e 1979, em parceria com Brian Eno, na época em que Bowie morava na cidade alemã.

David Bowie também descreveu a técnica em 1974, em um documentário da BBC chamado Cracked Actor:

Ideal de felicidade plena

Em 1998, Bowie concedeu uma entrevista a uma revista chamada Vanity Fair, em que respondeu que a sua ideia de felicidade plena era ler. A prática da leitura era a sua atividade predileta quando estava relaxado — para ele, uma boa semana era aquela em que se debruçava sobre três ou quatro livros. Este artigo teve o objetivo de capturar um pouco do mundo literário de Bowie, mas é nítido que a biblioteca do artista era vasta: certa vez, levou consigo para o México cerca de 400 livros para a filmagem do filme The Man Who to Earth, em 1976. O artista declarou mais além, em 1997: “Eu estava morrendo de medo em deixá-los em Nova York, porque eu estava saindo com algumas pessoas problemáticas e eu não quis que ninguém roubasse nenhum dos meus livros” (tradução livre). Viajar com uma pequena livraria em cada turnê virou um costume a partir deste episódio.

Não pode-se deixar de ressaltar, também, a influência direta do gênero sci-fi em sua carreira (assunto abordado de forma muito interessante nesta matéria da Pitchfork, assinada por Jason Heller). Não surpreende o fato de que, entre seus 100 livros prediletos, listados em 2013, constam as distopias Laranja Mecânica (1962), de Anthony Burgess, e 1984 (1949), de George Orwell. Vale a pena conferir a lista completa.

BIBLIOGRAFIA

DOGGETT, Peter. O homem que vendeu o mundo: David Bowie e os anos 70. Curitiba: Nossa Cultura, 2014, 568 p.

Publicado originalmente no dia 18/2/2016, no site Homo Literatus: http://bit.ly/2kztzL8

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