Por que viajar 130 km para comer um bolo?

Porque algumas esquinas são muito raras e a Harmonie Sucrée é uma delas.

Em uma praça no centro de Americana, a chef Darci Alves da Silva prepara doces delicados e equilibrados como o bolo de baunilha da foto acima. É difícil encontrar quem maneje o açúcar sem ser dominado por ele, mas Darci faz isso com perfeição.

A receita foi desenvolvida enquanto a chef morava na Suíça. "Quando eu percebi que o terceiro homem mais rico de Genebra vivia encomendando o meu bolo, achei que era a hora de voltar para o Brasil e começar meu próprio negócio", relata.

Darci estudou na renomada Le Cordon Bleu, mas trabalhou como manicure. Viajou o mundo, mas decidiu abrir a sua loja em Americana. Conversa com os clientes, mas faz questão de dizer que seu lugar é na cozinha. Tudo isso faz com que a sua Harmonie Sucrée seja um ponto de encontro muito único entre a sofisticação da patisserie francesa e a simplicidade acolhedora do interior.

Ali, todo bolo tem uma história (palavras dela) e, se deixar, Darci conta todas. O bolo Vicente, por exemplo, é uma adaptação de uma receita tradicional angolana, presente por uma amiga que viveu na África por muitos anos. “Só tirei um pouco do açúcar, para equilibrar”, revela a chef. O de pistache veio da vontade de usar a massa de macaron em outros contextos e o de baunilha, meu xodó, de uma mistura de vários elementos.

Quando soube que eu tinha arrastado meus pais de São Paulo até a sua loja, Darci fez questão de ir até o salão agradecer nossa presença.

Falei do meu amor pelo bolo de baunilha e do quanto gostava de contemplar os pontinhos pretos de fava no creme. "Então pode deixar que eu vou caprichar", ela respondeu.

Alguns minutos depois, a fatia generosa chegou: uma massa de pão de ló fofa, airada, do jeitinho que Deus concebeu, coberta por um merengue que não chega nem perto de ser excessivamente doce e mergulhada nessa versão mais leve de um crème pâtissière. Uma coisa linda que derrete na boca e vai direto para o coração.

As favas são importadas da França, assim como alguns ingredientes do crème pâtissière, mas nada disso se traduz em preços abusivos ou ostentações desnecessárias, muito pelo contrário: como a maioria das doceiras do interior, Darci fala de suas criações e processos de uma forma acessível e carinhosa.

Comovida pelo nosso esforço de dirigir durante 1h30 para saborear seus doces, ou talvez só orgulhosa das suas criações, ela foi nos brindando com um pedacinho de cada uma das principais receitas da casa. No final, veio curiosa querer saber qual tinha sido nosso favorito e pareceu um pouco decepcionada quando disse que minha paixão pelo bolo de baunilha permanecia inalterada.

Ela se despediu, agradeceu nossos elogios e voltou para a cozinha. E eu saí de lá tentando entender quando a sofisticação e a simplicidade se afastaram, porque, na Harmonie Sucrée, elas parecem feitas uma para o outra.

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Harmonie Sucrée
R. Primo Pícoli, 651 — Jardim Girassol, Americana — SP
De Terça a Sábado, das 8h às 19h