Fios de esperança

Marcela Tahan
Aug 22, 2017 · 2 min read

Embaraçado. Sim, é assim que me enxergo e sou: um emaranhado de fios, tristes fios, frios. Mas nem sempre fui assim, houve um tempo em que eu era diferente. Vivo e iluminado, eu costumava exalar força e beleza.

Na realidade, sou apenas o reflexo do que ela é. Afinal, sou parte dela. E desde que a velha senhora teve a ideia de me usar para chegar até o topo da torre, eu não sou mais o mesmo. De início, achava gostoso sentir a liberdade que havia perdido. O vento que batia em mim quando eu era arremessado lá para baixo me lembrava que ainda havia vida lá fora. Sorria até o momento em que a velha senhora começava a trepar por entre meus fios.

Suas mãos eram grossas, revoltosas. E, ao subir, eram elas que me apertavam com força, de certo porque a velha tinha medo de cair daquela altura. Enquanto as mãos — sempre trêmulas — tentavam trabalhar velozes, suas pernas gordinhas e curtas cruzavam uma por cima da outra, fazendo um zigue-zague frenético. Demorava uns 40 minutos até conseguir chegar, finalmente, até a janela. E todos os dias era a mesma coisa: mãos tremendo, pernas que se cruzavam, eu cada vez mais gasto e cansado.

Quase sempre que a velha senhora vinha ao encontro dela era para deixar um pouco de comida e água. Às vezes também dizia algumas bobagens sobre a cantoria da pobre prisioneira. Não gostava de ver a moça feliz, afinal, quem tão infeliz gostaria? Depois era a hora do ritual da descida. A velha agarrava meus fios como nunca e a sua escalada durava ainda mais tempo que a subida. Um tormento, meu maior sofrimento.

Não era culpa da prisioneira a confusão dos meus fios. Muito pelo contrário: depois da visita diária, a garota sempre desmanchava a longa trança e me penteava com todo o cuidado por horas. Depois, separava meus fios minuciosamente e refazia a trança para tudo ficar no devido lugar. Esse era seu momento preferido.

Até que um dia, as pernocas gordinhas da velha foram substituídas por pernas longilíneas e fortes. As mãos cheias de calos deram lugar a duas mãos macias, sem tanto tempo de vida. Era ele, o príncipe. Seu andar por entre meus fios mostrava a segurança de quem sabia muito bem o que queria.

Depois daquela visita, nasceu uma esperança. Depois de tantas andanças por entre meus fios, nasceu a possibilidade de desfazer todos os nós que em mim estiveram impregnados. E depois de tanto tempo sendo arremessado até o chão, talvez agora eu voe junto com ela. Para longe.

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Marcela Tahan

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redatora, jornalista e escritora que tem como principal inspiração os pequenos acontecimentos cotidianos.