Oi, moça. Você é linda.

Outro dia surgiu uma pergunta no Twitter:

“O que o seu eu de 10 anos de idade diria sobre a sua vida atual se te encontrasse hoje?”

Pausa.

Respirei fundo.

Drama

“Eita”

Sorriso

“Eita”

Sorriso

A verdade é que meu primeiro pensamento foi de achar que ela estaria decepcionada. Tantas metas ainda no papel, tanto dinheiro que ainda não veio, morando de aluguel, trabalhando pra pagar contas, sem carro, sem viagens internacionais de autoconhecimento profundo, sem marido e nem filhos, sem nem um cachorro pra chamar de meu.

Dois minutos depois pensei melhor e percebi que ela estaria orgulhosa, ela me olharia com admiração e iria desandar a falar. Imagina só o quanto aquela menina de 10 anos de idade, magricela e de cabelo bem doido ficaria ao ver que hoje ela tá de boas com o próprio corpo, que o cabelo tá maravilhoso e que sim, ela se acha linda e tem até menino que acha o mesmo, não foi invenção da mãe dela não.

Ela ficaria maluca em ver a quantidade de livros que eu já li, de ver o Kindle, de ver que a leitura é sim uma coisa muito importante, que continua afogando ela com novidades e fazendo com que ela viaje sem sair de casa. Não, ler não é uma besteira, como todo mundo falava.

Essa menina ia ficar sem fala quando notasse que eu tenho uma casa só minha, com cama grande, geladeira e até panela. Que eu não casei mesmo e nem tive filho. Na verdade isso deixaria ela até surpresa pois 22 anos se passaram e ela continua fiel ao mesmo pensamento.
O sonho dela era estudar, estudar e estudar. Ok, não tá dando pra estudar tanto assim, mas o diploma da faculdade tá lá na gaveta. Tudo bem que eu não segui a carreira, mas ela só queria ir pra faculdade mesmo, nunca teve o sonho de uma profissão.

E sério, ela ficaria alucinada em ver meus sapatos de salto alto e, principalmente, de ver que eu uso lingerie de mulher adulta, com cor combinando: sutiã preto, calcinha preta. Sutiã amarelo, calcinha amarela. Igualzinho as mulheres usavam naqueles filmes do Corujão que ela via nas noites de insônia.

Ah se ela visse as 4 tatuagens que eu fiz.

A única coisa que deixaria ela um pouco triste seria o fato de não ter ido pra Espanha ainda, mas ela sempre soube que a vida não é fácil, eu sei que ela compreenderia. Até porque, ela ficaria boba com os lugares que já conheci, com as pessoas que são minhas amigas, com as coisas deliciosas que já comi por aí.

Eu consigo ver nos olhos dela o êxtase em saber que eu falo inglês, consigo até ver filme sem legenda e ainda me arrisco muito bem no espanhol.

Agora diz pra mim, o que o seu eu de 10 anos diria sobre a sua vida se te encontrasse hoje?
Será que realmente somos uma decepção? Ou será que só rebaixamos nossos sonhos pois eram simples demais e não faziam vista nas conversas com outros adultos? Afinal, que sonho de gente grande é esse de usar salto alto? Te ensinaram que sonho de verdade é trocar de carro todo ano e que pra se sentir realizada é preciso ter coisas de milhares de dólares, ver lugares novos todos os dias e ser CEO de uma multinacional.

Mas surge uma pergunta boba dessas numa rede social e depois de dois minutos de pensamento percebi que o meu eu de 10 anos ficaria doida só de saber que parte do meu trabalho é responder emails em outra língua, quem se importa se isso não muda o destino do mundo? Ela só olharia pra mim digitando e diria “EITA”.

Não sei quando perdemos essa simplicidade no pensamento, essa qualidade de ser feliz com pouco ou até com nada. Mas sei quando comecei a recuperar e foi um passo importante na minha vida. Sei que a gente precisa parar de substituir coisas simples mas que nos completam e acalmam por sonhos alheios, que só nos causam angústia e sentimento de fracasso. Na maior parte das vezes esses sonhos são inalcançáveis pois tem o objetivo apenas de causar impacto nas conversas e, nas raras ocasiões em que conseguimos realizar um deles, percebemos que eles não nos fazem felizes, porque não são nossos.