Crônica: Debatendo Blackstar com um fã de Bowie

Nesse dia marcado pelo lançamento do novo álbum de David Bowie, encontro com um fã do camaleão. Segue o diálogo:
 
 — E aí, cara? Ouviu Blackstar?

— Claro. 
 — O que achou? Aqui desceu quadrado. 
 — Amei. Como tudo que ele faz. 
 — Eu nunca fui um grande fã dele, inclusive deveria conhecer mais, mas fiquei bem decepcionado. 
 — Então você não pode falar. Pra falar de David Bowie tem que conhecer David Bowie. 
 — Ok, entendo, mas estou falando desse disco. Especificamente.

— Mas Bowie tem toda uma história, não dá pra julgar assim. –

— Eu tinha achado o outro incrível. Discaço. Pra ouvir do começo ao fim. 
 — Sensacional. Depois de um longo período parado veio com aquele disco maravilhoso. Eu também adorei.
 — Isso pode?
 — O que?
 — Julgar “The Next Day” sensacional?

— Mas é. 
 — Mas me decepcionar com Blackstar não pode?
 — Pode, meu, mas é que você tem que conhecer Bowie.
 — Só quando não gosta?

— Não, tem que conhecer pra vida!
 — Ok, mas não dá pra conhecer tudo na vida. Todo mundo não conhece bem algo, eu não conheço tão bem assim David Bowie. Mas, numa boa, não é por isso que Blackstar não me agradou. Não conhecer David Bowie não me desabilita a analisar o álbum. 
 — Te desabilita como pessoa.

— Ah, meu Deus…. Ok, voltemos ao disco: você não achou cansativo?
 — Não. 
 — Extenso?
 — Não. 
 — O album não te cansou em nenhum momento? 
 — Não. 
 — Achei as músicas intermináveis. Sete músicas que pareciam vinte. Quantas vezes você ouviu?
 — Uma.
 — Todo?
 — Sim.

— Botou de novo?
 — Não. 
 — Por quê?

— Sei lá, fui ouvir outra coisa. Mas por que você não gostou?
 — Por vários motivos. Uma que vinha com as expectativas muito altas por conta de “The Next Day”. Outra que esperava algo mais palatável, o álbum é bastante experimental. Sei lá, é muito estranho. 
 — Mas é isso que você não entende. Bowie é o camaleão do Rock, é um gênio. Você tem que entrar no espírito e entender a linguagem dele como artista. 
 — Então Blackstar é um típico disco do David Bowie? Quem conhece vai gostar, quem não conhece não vai curtir. É isso?
 — Não. 
 — O candidato tem três minutos para a tréplica. 
 — O disco é incrível, é Bowie sendo Bowie. Bowie não precisa provar nada pra ninguém, ele é fantástico e por isso que ele é o Bowie. Bowie pode, deve, se permite e sempre fez questão de fazer o som que lhe vem à cabeça, sem concessões. 
 — Respeito muito isso, mas não posso deixar de fazer a pergunta: e se não fosse um disco do Bowie, fosse da banda ucraniana The Sweet House Thirteen. E ai? Seria essa maravilha toda também?
 — Acho que não, sei lá. Essa banda existe?
 — Inventei agora. 
 — Acho que não, porque eles não teriam o background e a genialidade do Bowie.
 — Então Blackstar é um disco do Bowie. E isso faz dele um disco bom?
 — Por aí. 
 
 Olhei no relógio, me despedi e fui embora me questionando se ele tinha razão. Pior que isso: me questionando o quanto ele tinha de razão. As pessoas não adentram o olimpo da música à toa. Não estamos falando de sucessos meteóricos. Estamos falando de arte no mais amplo sentido da palavra. Trata-se de um dos maiores artistas da história, alvo de devoção genuína de fãs ao redor do globo.

Não sei se ele já tinha ouvido “Blackstar”. Fomos embora, cada um pro seu lado. Eu, certo de quem não voltaria a ouvir o referido álbum. Ele feliz por ter seu ídolo de volta. 
 
*Essa é uma história fictícia. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas que não se chamem David Bowie é mera coincidência.

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