Foto: Fabiana Menine

Shows em Porto Alegre: o que esperar para 2016?

O ano de 2015 foi marcado por uma avalanche de manchetes com a palavra "crise". Crise, palavra de origem grega, tem muitas definições. Aqui, nos ateremos a duas delas: "situação de falta, escassez, carência" — que tem servido mais aos objetivos do jornalismo brasileiro — e a que destrincharemos aqui: "estado de incerteza, vacilação ou declínio".

Um chavão no jornalismo musical gaúcho é a famosa frase "na rota dos grandes shows". Porto Alegre já firmou posição entre os destinos brasileiros das grandes turnês. Desde a empreitada heróica de promover Kiss e Metallica com um mês de diferença em 1999 (valeu aí, Opinião, sempre lembraremos), a capital gaúcha passou a receber mais e mais artistas gringos. Só o Deep Purple veio quatro vezes. Definitivamente, era um bom negócio e o Brasil (com Porto Alegre inclusa) se tornou um El Dorado para muitos artistas (especialmente aqueles que já não fazem tanto dinheiro assim lá fora).

Aerosmith, Black Sabbath, Carlos Santana, David Gilmour, Eric Clapton, Foo Fighters, Green Day, Helloween, Iron Maiden, Justin Bieber, Kiss, Lady Gaga, Metallica, Nofx, Ozzy Osbourne, Paul McCartney, Queen + Adam Lambert, X (abrindo Pearl Jam), ZZ Top se apresentaram por aqui. Quase um abecedário de referências em seus estilos (lembrados rapidamente) visitaram Porto Alegre nos últimos 10 anos, em sua maioria com apresentações em locais de grande porte, para mais de 10 mil pessoas. O Deep Purple veio quatro vezes. O Pearl Jam, três. E ainda veremos, em março, os Rolling Stones.

O saudoso ano de 2010 chegou a apresentar ao público gaúcho Black Eyed Peas, Guns n' Roses, Green Day e Aerosmith, abrindo o ano com Metallica e encerrando apenas com Paul McCartney. Aureos tempos, sem dúvida alguma.

Porém, hoje, 02 de janeiro de 2016, ainda são poucos os anúncios para o ano que se inicia. Visitando os sites das quatro principais produtoras da capital, duas ainda apresentam agendas vazias. Outras duas apresentam apenas três shows. Nenhum internacional.

Os grandes shows marcados para esse ano ficam por conta da gigante Time 4 Fun: Maroon 5 e Rolling Stones, já com ingressos esgotados.

Isso, somado à sensação de que 2015 não foi lá essas coisas, geram uma pergunta:

Existe uma crise?

Fui falar com alguns envolvidos. Pessoas que vivem em contato direto com esse mercado.

Fabio Nunes, CEO da Bus Session, empresa especializada em excursões para shows (sediada em Florianópolis e com operações em cinco estados), enxerga um cenário nebuloso quando a pergunta é se existe uma crise:

"O preço que se divulga é o valor da inteira, realidade que Porto Alegre não tinha até pouco tempo, e os valores, junto ainda com o dólar, passaram a ficar proibitivos. Apesar do sucesso de vendas (que como consequência tirou do fã dinheiro que poderia comprar ingressos para outros dois shows), Stones com exatamente os mesmos valores de Rio e SP (mesmo sendo um show em quarta-feira) é o melhor exemplo disso, enquanto Gilmour e Pearl Jam não esgotaram. Porto Alegre perdeu o maior atrativo que a incluiu no mercado junto com o meio caminho entre SP e Buenos Aires: risco menor, por ingresso mais barato, por não ter meia-entrada. Basta pesquisar preços de Paul McCartney, Roger Waters, Black Sabbath e até Foo Fighters (esses dois últimos inclusive com o desconto de 20% que a Madonna provocou a partir de abril de 2012) para entender isso".

Ricardo Finocchiaro, proprietário da Abstratti Produtora, é ainda mais taxativo quanto às más perspectivas para 2016:

"Existe uma crise mundial, porém, por sermos brasileiros, ela nos atinge com mais força, vide a alta do dólar que, se contar no paralelo (que é como temos de pagar os artistas) bate os R$4,00. Imagine que uma banda que cobre somente U$5.000,00 de cachê (o que é um cachê bem baixo), já está sendo de saída um custo de R$20 mil, soma-se os custos locais de produção (aluguel da casa, hospedagem, divulgação, equipe, taxas — ecad, iss, sated — equipamentos de som, luz, backline, etc) tendo uma perspectiva baixa sem perder a qualidade do trabalho, pode incluir mais R$30 mil, ou seja, R$50 mil de custo total de um show de uma banda com cachê pequeno, isso significa que precisamos de 500 pagantes à R$100 SOMENTE para cobrir o custo do show. Da forma que o cenário está configurado é SUICÍDIO fazer show com perspectiva inferior a 800 pagantes. Só nisso aí podemos limar, no mínimo, 50% da quantidade de shows internacionais que estiveram em Porto Alegre nos últimos anos."

Rodrigo Machado, da Opinião Produtora, tem uma visão um pouco mais otimista, apostando na criatividade e competência dos produtores:

"Não existe crise quando o público quer muito assistir um determinado show. O momento atual faz apenas que os produtores elaborem e reflitam mais sobre o que fazer e como fazer. A qualidade da oferta aumenta"

Rodrigo cita como exemplo a estratégia bem sucedida de reunir em um mesmo evento Nando Reis e Humberto Gessinger em março.

José Norberto Flesch, jornalista do Destak e referência quando o assunto é shows no Brasil, observa um cenário de maior cautela por parte das produtoras:

"O que percebo como jornalista, e pensando como produtor, que já fui, é que, com dólar alto, produtoras vão arriscar menos. O que pode não dar certo, o que se tem dúvidas, receberá menos atenção, e a ideia deve ser investir no que já deu certo aqui. É o pisar em terreno conhecido. O dólar alto tem, inclusive, a vantagem de inibir leilões de cachês."

Sobre Porto Alegre sair do circuito, Flesch desacredita:

"Quanto a Porto Alegre sair do circuito, sinceramente, é um pouco de bairrismo. Rio também está achando que vai ficar fora porque David Gilmour não tocou lá (mas tocou em Porto Alegre). Porto Alegre ja está em duas das maiores turnês do primeiro semestre: Rolling Stones e Maroon 5. O que acontece é que as coisas são feitas com parcerias. Se amanhã uma grande produtora conseguir um parceiro no nordeste, por exemplo, que apresente uma proposta melhor que a do parceiro de Porto Alegre, o show vai pro nordeste. E isso não tem nenhuma relação direta com crise do país. Tem também uma coisa em que produtor pensa muito, que é o perfil do público da cidade. Sei que Porto Alegre está bem cotada, por exemplo, quando o assunto é classic rock, mas a decisão mais forte ainda é da parceria."

O que vem por aí?

O desenho não é nítido: Por um lado, temos uma cidade que esgotou rapidamente os ingressos dos dois grandes shows internacionais anunciados para 2016. Do outro, uma escassez de atrações anunciadas, um cenário de dólar alto e uma nova realidade com a lei da meia entrada. Tudo isso remete à "situação de falta, escassez ou carência" e ao estado de "incerteza, vacilação ou declínio" que falamos lá no começo do texto. Não parece ser um ano de excelentes notícias, porém boas surpresas podem surgir.

Acompanhemos o que o futuro reserva para os gaúchos em 2016, torcendo para que Porto Alegre continue, como diz o chavão, na rota dos grandes shows internacionais.