Quando me tornei aquilo que não quero ser

Marcele Antonio
Jul 25, 2017 · 2 min read

Eu me tornei uma pessoa rude. Faz dias que venho reparando como reajo às situações do cotidiano e me espantei ao perceber que meu comportamento é completamente outro. Ando mau humorada, franzindo a testa. Respiro profundamente N vezes ao dia. Sinto estafa aos 25 anos. Perdi a paciência para argumentar. Vou aglomerando uma coisinha daqui, outra dali e acabo me levando ao esgotamento. Faço, infelizmente, quem está ao meu redor pagar por isso.

Eu me tornei uma pessoa distraída. Empenho concentração máxima em algumas tarefas e fico completamente fora da casinha para outras. Não foram poucos os momentos em que as pessoas tiveram que chamar minha atenção de alguma forma para que eu me ligasse que a conversa era comigo. Sem falar das piadas que ri sem ter assimilado uma palavra sequer.

Eu me tornei uma pessoa fria. Sempre senti tudo com uma intensidade exacerbada. Fui daquelas de chorar copiosamente por alegria e por dor. De ficar dias abalada por causa de algum conflito de amizade, amor ou família. Mas de tanto sentir, fui criando bloqueios. Agora nego tudo o que me exija esforços emocionais demais. Sábio Jaiminho, o carteiro, já definia: “prefiro evitar a fadiga”. Nessa levada, vi que perdi a capacidade de externar sentimentos. O que antes me arrancava lágrimas, hoje não me faz nem mudar a expressão do rosto.

Eu não sou rude, nem distraída, nem fria. Mas eu adquiri essas características quando fui trocando as essenciais miudezas do dia a dia por um ciclo vicioso de “mais do mesmo”. Saio de casa sem tomar café da manhã. Acelero o passo quando todo mundo ainda está com a cabeça bem encaixadinha no travesseiro. Venço um período do dia pensando no outro. Almoço como dá. Engato o segundo tempo ainda reverberando as “faltas” do primeiro. Encerro o expediente, mas o expediente não se despede. Não caminho mais no fim de tarde. Não cozinho mais e me entupo de porcaria. Tenho dificuldade em assistir um filme inteiro sem dormir. As músicas que me acalmavam agora me irritam. Eu sinto ansiedade mesmo nos fins de semana.

Minha garganta inflamada quase que com periodicidade definida faz questão de me lembrar que a imunidade vive baixa e que eu preciso olhar mais para mim. Para dentro e para horizontes mais amplos do que a janela do escritório.

Venho tentando entender porque me tornei o que não quero ser. E venho descobrindo que o meio me molda, mas que isso só acontece porque eu tenho permitido.

E decide que preciso me reaprender.

Marcele Antonio
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